sexta-feira, 26 de setembro de 2008

"Saturno Contro" de Ferzan Özpetek é exibido hoje no Cinema São Jorge


Dez anos após a sua estreia como realizador em "Il Bagno Turco", e cinco longas-metragens depois, o cineasta italiano de origem turca Ferzan Özpetek surge com Saturno Contro (passa hoje, às 22.00, na sala 1 do Cinema São Jorge, no âmbito do Queer Lisboa), filme com um título pleno de ressonâncias astrológicas. Um título que, porém, mesmo para quem domine o seu significado esotérico, não deixa de ser algo obscuro e difícil de justificar à luz do que se passa com as personagens do filme. Mas talvez baste dizer que se trata de um termo astrológico que designa tempos de grande perturbação e convulsão.

Saturno Contro é um filme essencialmente apostado em expor a teia de relações que se vai tecendo entre diversas personagens, e a forma como um acontecimento trágico abala, transforma e porventura robustece tais ligações. O círculo de amigos abre-se com Lorenzo (Luca Argentero), que andará pelos 30 anos e é namorado de Davide (Pierfrancesco Favino), escritor e mais velho que este uma década. Lorenzo é avesso a mudanças e gostaria de eternizar a felicidade presente, mas talvez Saturno venha alterar-lhe os planos. Roberta (Ambra Angiolini), amiga de Lorenzo, é que teria uma palavra a dizer sobre tal influência, pois está convencida de que a sua toxicodependência e falta de amor-próprio se explicam por um "mau horóscopo". No mundo de amigos (entre os quais encontramos os actores Stefano Accorsi e Margherita Buy) que os rodeiam, cruzam-se histórias de amor e infidelidade, de relações secretas e desejos. Contudo, o inesperado acontece quando Lorenzo sofre um derrame cerebral.

Melodrama intimista com um toque almodovariano (mas do lado mais "sóbrio" do cineasta espanhol) e óptimas interpretações dos actores, Saturno Contro é um filme centrado no poder salvífico, mas também na fragilidade das relações humanas (nas quais somos todos afinal pedras angulares uns dos outros), sendo nesse sentido um exemplo bem estruturado de um cinema essencialmente antropocentrado. Um cinema sobretudo interessado no factor humano de uma perspectiva eminentemente relacional, e não tanto em aduzir reflexões existenciais, as quais deixa humilde e despretensiosamente por conta dos espectadores que nelas queiram arriscar-se. No entanto, uma lição podemos tirar deste filme: somos todos conservadores do que nos faz felizes.

(Fonte: Diário de Notícias)

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