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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Orhan Pamuk: "Eu pertenço à língua turca"

Embora não o pareça, “Noites de Peste” é um livro sobre a repressão. Sobre o aproveitamento político de uma quarentena numa ilha fictícia que poderia ser a Turquia de outrora se não fosse a de hoje. A ambas pertence o escritor que em 2006 recebeu o Nobel da Literatura.

Ainda escreve dez horas por dia e é nesse ritmo que, aos 71 anos, está a trabalhar num romance autobiográfico sobre a sua adolescência em Istambul, a cidade à qual pertence, na língua que é a sua. Assim culmina esta conversa com Orhan Pamuk — com a afirmação: “Eu pertenço à língua turca.” Não devemos admirar-nos. Desde os 20 anos que o Nobel da Literatura em 2006 e filho de um Império Otomano em declínio se dedica a retratar o seu país, a dissecá-lo, a recriá-lo com a imaginação e com as garras que, por vezes, a escrita deve ter. Agora, em “Noites de Peste” (Presença, editora portuguesa do autor), um gigante de mais de 600 páginas que levou três décadas a gestar-se, analisa a ascensão do nacionalismo num ilha fictícia assolada pela terceira peste pandémica, em 1901. Um livro tão realista como alegórico do presente numa Turquia “cada vez mais cruel e autoritária”. É a partir dela e das suas contradições — políticas, geográficas — que conversou com o Expresso.

Este livro é uma ideia antiga. Em “A Casa do Silêncio” já tinha abordado o tema da epidemia. Porquê dedicar-lhe um romance inteiro?

Nesse livro dos anos 80 havia uma personagem que era um historiador otomano a pesquisar sobre a peste. Mas fiquei com vontade de escrever um romance que se passasse inteiramente durante uma epidemia. Porque as epidemias, em especial as dos tempos medievais, são grandes focos de drama humano e histórico. Esta ideia estava presente em “A Casa do Silêncio”, onde quis que as personagens refletissem sobre como a nossa individualidade e as nossas ideias se desenvolvem quando somos confrontados com a morte, quando ela está perto e é palpável.

Além da morte, que outras noções estão em causa numa epidemia?

As pestes medievais ocorreram muito antes de, em meados do século XIX, a Humanidade descobrir as bactérias e, depois, as vacinas. Por isso, a morte por peste estava num plano mais metafísico, porque a Humanidade não compreendia de onde provinha a doença. As pessoas iam logo ter à ideia de Deus. Pensavam que Deus as estava a castigar. Na Turquia, mesmo em pleno século XXI, houve quem acreditasse que a pandemia de coronavírus era uma punição de Deus e, portanto, algo de inevitável. De repente, as pessoas começam a morrer e só se consegue pensar em salvar-nos e em salvar a família e os amigos. Por outro lado, já nos tempos medievais se sabia o que era uma quarentena — o isolamento dos doentes. A quarentena significa que um Governo, qualquer um, imporá regras severas e até cruéis. Talvez esta seja a razão por que há seis anos decidi finalmente escrever um romance sobre a peste: porque o Governo turco, o Governo de Erdogan, está a tornar-se cada vez mais cruel, severo e autoritário. Então pensei em construir um romance realista que fosse também uma alegoria sobre os dias de hoje.

É interessante que estivesse a escrever sobre uma pandemia quando a de coronavírus aconteceu. Isso influenciou o rumo do romance?

Sim, foi uma imensa coincidência. Mas, sabe, sou um escritor lento, em especial se o romance tiver um carácter histórico. Os meus amigos diziam: “Quem vai ler este romance esotérico e bizarro sobre a peste, que decorre há 120 anos?” E, de repente, aquelas coisas sobre as quais eu estava a pesquisar — a quarentena, o distanciamento social, o confinamento — começaram a invadir os jornais de todo o mundo.

Tornou-se a nossa realidade.

No início foi um choque. Esses mesmos amigos ligavam-me para dizer: “Tens tanta sorte!” Porque esta não é a minha primeira coincidência: quando estava a escrever o livro “Neve”, sobre o Islão político, aconteceu o 11 de Setembro. Mas a questão da ‘sorte’ é muito relativa. Os meus tios, que viviam a dois quarteirões daqui, foram das primeiras vítimas mortais do coronavírus em Istambul. Na altura, muita gente me perguntou sobre como me sentia a escrever em confinamento. Digo sempre que, enquanto escritor, vivo confinado há 48 anos. Para escrever romances é preciso viver numa espécie de quarentena.

Que importância teve para si a restante literatura sobre epidemias, autores como Defoe ou Camus?

Diria que foram clássicos essenciais. De Daniel Defoe, temos o “Diário do Ano da Peste” [PIM Edições], de 1722. E há também “The Bethroted”, do italiano Alessandro Manzoni. Albert Camus, por sua vez, com “A Peste” [Livros do Brasil], não estava interessado na quarentena e nas suas regras. Abordei o assunto nas minhas aulas de literatura comparada na Universidade de Columbia, não da perspetiva epidémica, mas política. Se em vez de ‘peste’ escrevermos ‘nazis’, o resultado é o mesmo. É um romance moral, menos sobre realismo e comportamento humano, do que sobre atitudes como a defesa, a solidariedade, o pânico ou a cobardia. De qualquer modo, a mim interessava-me a quarentena e encontrei muitas histórias e teses escritas sobre o tema. Preocupava-me que os leitores pensassem que escrevi o livro após o coronavírus, para aproveitar o sucesso comercial. Por isso publiquei um longo ensaio no “New York Times”, a explicar que não ‘cozinhei’ este livro enorme em cinco minutos. A reação dos editores foi perguntar logo quando é que estaria pronto. Subitamente, o meu romance estava na ordem do dia.

Decorre numa ilha fictícia, Minguer, no Mar Egeu. Que lugar é este?

Se as epidemias concentram uma grande dose de drama, isso também acontece com o isolamento. O meu livro “Neve” [2002] está situado numa cidade isolada do resto da Turquia, pelo que a história progride mais depressa. O mesmo vemos na “Montanha Mágica”, de Thomas Mann. Gosto, por exemplo, de situações em que um avião está a atravessar a Amazónia e se despenha, e os passageiros fazem coisas estranhas como devorarem-se uns aos outros, matarem-se ou inventarem um novo regime político. Portanto, era importante criar um ambiente deste tipo. Queria explorar as origens do nacionalismo e precisava de um lugar onde este se pudesse desenvolver. Também me apetecia acrescentar ao livro qualquer coisa que ultrapassasse o realismo. Tinha uma história panorâmica sobre o declínio do Império Otomano, e isso era demasiado pesado, demasiado duro. Precisava de uma aura de doce artificialidade. A minha ilha é bonita, tem um tom de conto de fadas, lembra “As Viagens de Gulliver”, de [Jonathan] Swift. Ou, de novo Daniel Defoe, que além de ter escrito o melhor livro sobre uma epidemia também escreveu o melhor livro sobre uma ilha, chamado “Robinson Crusoé”. Ele é o meu herói, escreveu as melhores obras sobre as temáticas que mais me interessam.

Numa entrevista recente disse que o livro é nostálgico. Porquê?

É nostálgico da cultura da última década do Império Otomano. Quando eu era criança, há 60 anos, a casa da minha avó estava cheia de fotografias e retratos de doutores, paxás e burocratas desse período, que aparecem no meu romance. É esse tipo de nostalgia, pela vida diária de um império em decadência. E é também uma tentativa de homenagear os burocratas em cujas mãos o Império se desfez e desapareceu. A sua civilidade e cultura, o seu desânimo. A sua dedicação. Perto do final, há uma cena em que todos são colocados num barco e mandados de volta a Istambul. Não se trata propriamente de uma homenagem ao Império Otomano em si, mas de tentar compreender as pessoas que o conduziram à extinção.

Podemos dizer que a geografia do livro é antieurocentrista?

Nos grandes romances há sempre grandes cidades. Em Dostoiévski e em Tolstoi estamos em São Petersburgo e em Moscovo. Na maioria dos romances clássicos estamos em Paris, em Londres ou em Berlim. Por vezes, em Milão. Ora, as cidades do meu livro estão centenas de quilómetros a sul dos centros urbanos do tempo em que o romance foi inventado, ou seja, Londres e Paris — porque foram Dickens e Balzac que inventaram o romance como tal. Agora estamos fora da Europa, de Xangai a Minguer, passando por Bombaim, a analisar a migração de micróbios de leste para oeste a partir da descoberta da peste, que aconteceu em Xangai. A história decorre naquela que é conhecida como a terceira peste pandémica, que começou em 1897 e continuou até meados de 1920, e na qual morreram 20 milhões de pessoas na Ásia, sobretudo na China. O romance não está centrado na Europa porque na Europa morreu muito pouca gente. E porquê? Bom, os europeus eram mais educados e mais recetivos aos argumentos da quarentena, enquanto noutras partes do mundo — pelo colonialismo ou por ignorância — as pessoas não paravam de morrer e isso não era sequer conhecido no Ocidente.

Depois de publicar o livro, foi levado a tribunal por desrespeito a Kemal Atatürk. Sob que argumentos?

Deixe-me esclarecer que o processo não está concluído. Simplificando, uma parte do Governo quer processar-me e a outra não. Agora estamos numa espécie de limbo: o meu dossier foi enviado de volta para Ancara e desapareceu no labirinto da burocracia judicial turca. O que aconteceu é que me acusaram de fazer uma correspondência entre o fundador da fictícia República da Minguéria, uma das figuras principais do romance, e Kemal Atatürk. Como se ambos fossem a mesma pessoa. Na verdade, a minha personagem não é Atatürk, e existem elementos claros que os separam. Por exemplo, ele gostava de bebidas alcoólicas e a minha personagem não, além de não se lhe parecer fisicamente. Mas que importa? Há uma péssima tradição no sistema legal turco: basta alguém escrever algo polémico e o procurador abre uma investigação. Sob o seguinte argumento: “Se ele não for culpado, vai defender-se e nada vai acontecer.” É isso que se passou, ou seja, nada. Apenas notícias nos jornais. Durante um tempo tive medo, não de acabar na cadeia, mas de o livro ser banido. Porque estes casos acabam sempre por se tornar políticos.

A dada altura, contou que começou a perguntar ao procurador: “Em que página leu isso?” E ele não sabia dizer. Só esta cena dava um livro.

Perante uma acusação, esta gente não se preocupa em saber se é ou não válida. Não lê o livro, apenas dá início ao processo judicial. Então, é preciso ir com calma e agirmos como se eles o tivessem lido. Felizmente, o livro tem vendido bem, tudo está bem e agora estou aqui a falar consigo. Às vezes dá-me vontade de explicar aos procuradores: “O que vai conseguir é tornar o livro mais popular.”

Falemos sobre a quantidade de pessoas que, no seu país, são presas por dizer o que o regime de Erdogan não quer ouvir.

Muitas, muitas. Não sei com exatidão, teria de perguntar às organizações de direitos humanos. Sou um privilegiado, sou famoso, escrevo os meus romances, digo mais ou menos o que me apetece. Corajosos são os jornalistas turcos que criticam Erdogan e enfrentam processos por dizer em público o que não ‘deviam’ sobre o genocídio arménio ou sobre o que fazem aos curdos. São postos logo na cadeia. Há pessoas detidas por insultar Erdogan. Algumas talvez preencham os critérios, mas a maio­ria está presa apenas por criticar. Veja casos proeminentes como o de Osman Kavala [ativista sentenciado a prisão perpétua em 2022]. A Turquia não tem liberdade de expressão. Temos uma democracia eleitoral, muito limitada. Erdogan pune qualquer pessoa com a mínima chance de se transformar num verdadeiro opositor e ganhar uma eleição. Ele processa-o e impede-o de sequer concorrer.

Já foi perseguido, teve livros queimados na praça pública e foi o primeiro escritor do mundo islâmico a condenar a fatwa contra Salman Rushdie. Como se lida com estas situações?

Bom, a minha mulher está sempre a insistir: “Deixa-me ver o que disseste.” Vivemos uma vida nestes moldes, não sou um super-homem a combater o inimigo da direita fascista. Tenho cuidado. Se estou vivo e a falar consigo é porque, às vezes, tive de ficar calado, de me impor silêncio. Sou o vice-presidente do International PEN e defendemos a liberdade de expressão. Mas confesso que nem sempre sou livre de me expressar. Tenho sobrevivido porque sou ‘famoso’ e porque tenho cuidado. Posso até ser corajoso, mas há limites.

É uma gestão?

É um saber navegar entre perigos. A minha mulher avisa-me: “Disseste isto a semana passada, não o digas de novo.” Nos últimos 20 anos esta tem sido a minha vida e graças a Deus sobrevivi, porque quando o Governo não consegue silenciar alguém pela via legal, usa outros métodos, como o assassínio. Por outro lado, ironia das ironias, há 17 anos que vivo com guarda-costas contratados pelo próprio Governo. Metade do Governo persegue-me, a outra metade dá-me guarda-costas. Costumo fazer uma piada com isso: antes precisava de três, agora só preciso de um. É um progresso, estamos a melhorar.

Já li esta observação, mas é bom ouvi-la de si diretamente.

É bom rir-se. A única forma de sobreviver é através do humor.

O mundo ainda se sente ameaçado pela palavra escrita. Porquê?

A palavra escrita não é perigosa, mas há grupos radicais que abusam dela com a sua interpretação, tornando-nos os seus alvos. Há tabus. Mas se ninguém tivesse reagido aos “Versículos Satânicos” de Salman Rushdie, o livro teria sido esquecido e não teria mudado nada no mundo. De facto, os fanáticos radicais e os governos repressivos agigantam as coisas — se Salman tivesse escrito uma simples fantasia, eles tê-la-iam exagerado. O dilema dos escritores é: dou um passo atrás quando as coisas adquirem proporções exageradas ou, pelo contrário, mantenho-me firme na minha posição? Salman fez isto, é um homem corajoso. Escrevi muito sobre o ataque de que foi vítima. Haverá sempre gente autoritária que quer punir, obter vantagens ou fazer política por meio da ameaça e da morte. Isto vai continuar. Veja o que está a acontecer entre Israel e o Hamas. A situação dos escritores é insignificante ao lado disso.

Qual é a sua visão desta guerra?

A Humanidade tornou-se ali verdadeiramente selvagem. Os dois lados estão a comportar-se de um modo deplorável.

Como interpreta a posição da Turquia?

Os turcos seculares e pró-europeus estão especialmente divididos. Porquê? Porque são muçulmanos — pode-se ser muçulmano e secular — e, mesmo que defendam ideais ocidentais, sentem-se mais próximos da dor dos palestinianos. E porque, infelizmente, a chamada Europa civilizada, assim como os Estados Unidos, estão também a desrespeitar os seus ideais. Então, é um tormento. No início, o Governo turco apercebeu-se disto e não tomou partido, apregoando a calma para ambos os lados. Mas de repente, nos últimos dez dias, Erdogan mudou a sua atitude, e agora está abertamente a apoiar o Hamas.

E o que pensa disso?

É algo tão delicado que, para mim, os únicos critérios válidos são a liberdade de expressão, os direitos humanos e os direitos das crianças. E penso que os ataques israelitas são intoleráveis. Confinar estas pessoas a uma espécie de prisão a céu aberto e bombardear, e bombardear — não, isso não é uma guerra. No começo, fui compreensivo em relação a Israel, assim como a maior parte do mundo. E compreendo tanto a dor do povo palestiniano quanto a dos judeus e dos israelitas. Há tantas contradições que não há um modo totalmente justo de falar sobre o tema. Sou também professor na Universidade de Columbia, em Nova Iorque — agora estou em Istambul, a gozar de férias —, e há lá uma espécie de censura, em que as pessoas assinam petições, mas escondem os seus nomes. No campus de Columbia, os estudantes pró-Israel e os árabes já estão a atacar-se uns aos outros. Por outro lado, há muitos judeus que, fora e dentro de Israel, estão a criticar com firmeza Benjamin Netanyahu.

Várias vezes referiu que tenta evitar a política nos seus livros.

Mas este é um livro político. Talvez um dos mais políticos que escrevi, ou aquele em que a política surge mais ligada à vida quotidiana, por se passar em tempos de quarentena. A acusação de que fui alvo vem daí: da interpretação, quanto a mim errada, de que todos os mitos nacionais — a lenda do fundador do meu país, a lenda da nossa bandeira, as histórias sobre os nossos heróis, as imagens nas notas bancárias — surgem no meu livro como falsas e exageradas.

Isto leva-nos a outra crítica feita ao romance, a de ser ‘orientalista’. Concorda?

Não, porque não sou um orientalista. Essa acusação recaiu sobretudo em “O Meu Nome É Vermelho”, onde eu estaria a deturpar o Oriente sob uma perspetiva de dominação. É nisto que assenta, aliás, a ideia de orientalismo de Edward Said. Conheci-o, éramos amigos e foi uma espécie de pai para mim. Na altura, a acusação de orientalismo veio dos apoiantes da direita na Turquia. Embora não concorde com ela, consigo perceber que se critique um ligeiro tom exótico, de conto de fadas, do livro. Mas não me quero defender. Que eu saiba, “Noites de Peste” foi atacado noutro sentido.

Mas carrega com uma certa ideia pitoresca do Oriente.

De facto, um quinto ou um sexto do livro ocupa-se de descrever a elite da realeza otomana, as princesas, os noivos, os sultães. Isso sim, é sumarento, e embora eu o considere altamente realista, pode haver quem o considere orientalista. Da mesma forma, podem-me acusar de retratar esta elite como estúpida, ao que respondo que se trata, antes, de uma descrição realista da aristocracia otomana em declínio. Como se casavam, como viviam, o que faziam, a que aspiravam — sim, presto atenção a estas questões e gosto muito de escrever sobre elas. Não me importa se as qualificarem de orientalistas.

O sultão do romance navega entre o Oriente e o Ocidente. É este o lugar histórico da Turquia — fazer essa conexão?

Nessa altura, em 1901, a Turquia tinha um lugar muito relevante no jogo de forças mundial. Comparativamente, agora é menos importante. O sultão Abdul Hamid, embora fosse uma figura repressiva e reacionária, convidava os médicos mais caros do planeta para os nossos hospitais e tinha uma visão moderna sobre a construção, sobre a engenharia. Hoje, a importância da Turquia reduz-se a ser membro da NATO, não tem nada a ver com a população ou com o poder, ou com a força do seu exército. Isto porque encolheu, passou de império a país.

E o que pensa da forma como se desenhou a relação entre a Turquia e a União Europeia?

Na primeira década deste século, a UE estava muito interessada em promover a entrada da Turquia. Eu ia de país em país a falar dos meus livros e esse era um sentimento claro. Infelizmente, não aconteceu. Em parte, por culpa da própria Turquia e do seu desrespeito pelos direitos humanos, pela situação no Chipre, pela contínua repressão dos curdos. Neste momento, Erdogan está a mostrar-se amigável com Putin, irritando a UE. E, mesmo assim, acalenta o sonho — irrealista — de entrar na Europa. Quando as prisões estão cheias de pessoas que foram presas por criticarem o Governo, não há hipótese de sequer chegar perto desse objetivo.

A Turquia é necessária à UE no que toca à política de imigração.

Sim, mas não se trata de uma necessidade digna. Há duas situações: ou a Turquia tem a necessidade geopolítica de subornar a Europa e a Europa é paciente com isso, ou — o que é mais indigno — a Turquia embolsa dinheiro da UE para travar os migrantes enquanto Erdogan ameaça a UE. “Se me criticares muito, ou se eu sair do Governo, os migrantes passam e envenenam a tua vida.” O Governo turco faz isto sistematicamente. Diz que está ao serviço da Europa, servindo de tampão à imigração, e num sentido a Europa está muito contente com Erdogan.

Mas, deste modo, a Europa torna-se cúmplice da Turquia.

Sim. A UE e Erdogan partilham um grande pecado. Ninguém na Europa quer imigrantes. Nas últimas eleições, o candidato da oposição defendia que a Turquia deixasse de ter este papel. Claro que não era muito popular na Europa e não recebeu o seu apoio. Lamentavelmente, Erdogan foi reeleito.

O que pensa dos que afirmam que Erdogan está a construir um ‘neo-otomanismo’?

Há nisso alguma verdade. Celebrámos há dias o centésimo aniversário da República da Turquia. Ou seja, há 100 anos que somos uma república moderna, supostamente secular e pró-europeia. Essa Turquia moderna não respeitava o Império Otomano — nos meus manuais escolares, por exemplo, os otomanos não eram representados como retrógrados, pré-modernos e não suficientemente europeus. Erdogan modificou essa retórica. Disse às pessoas que os otomanos eram bons, e isso levou a imprensa ocidental a falar de ‘otomanismo’. Porém, o próprio Erdogan sabe que o ‘otomanismo’ não é uma realidade — pelo menos enquanto a Turquia estiver a implorar por mais aviões aos Estados Unidos.

Há uma romantização do Império perdido?

Totalmente, é uma ideia romântica. Os meus primeiros livros foram romances históricos que abordavam os tempos otomanos. Ora, há 40 anos ninguém fazia isto. Hoje as coisas mudaram e fico feliz por isso. Os otomanos não eram inteiramente maus ou inteiramente bons. É um pouco mais complexo.

Sente-se otimista quanto ao futuro do seu país?

Por vezes. Tenho os meus momentos. Penso que as ideias de liberdade e os valores europeus, assim como o respeito pelos direitos das mulheres, irão chegar inevitavelmente à Turquia, mais tarde ou mais cedo. Como esquerdista liberal e ingénuo que sou, ainda acredito que vamos fazer parte da UE, embora não nos próximos 20 anos. Quanto mais rico for um país, mais é provável que desenvolva essa exigência de respeito pelas minorias. Mas também sou pessimista, porque, como já aqui referi, a importância da Turquia diminuiu. Só é importante para evitar que os imigrantes asiáticos e africanos ingressem na Europa. E quanto mais imigrantes ingressarem na Turquia, mais difícil será para a UE ‘engolir’ que a Turquia faça parte dela. Estas são as contradições do presente, que desfocam e obscurecem o futuro do país.

Pode falar da noção de pertença a um país? De como Orhan Pamuk pertence à Turquia?

Pertencer é ser-se o que se é num espaço, num lugar, num tempo, numa geografia que se quer defender. Mas mais do que a geografia turca ou a população turca, o que me apetece defender é a língua turca. Eu pertenço à língua turca e, nesse sentido, sou um conservador. Não quero que a minha língua se modifique demasia­do, em termos de léxico e de regras. Os turcos vieram da China ocidental — os uigures, hoje severamente perseguidos, são os nossos tetravós. Durante dois mil anos, este povo caminhou para oeste. Tudo neles — os olhos, as feições — era asiático. Hoje, os turcos são mais ou menos como eu. A sua cultura e costumes mudaram. Na linguagem, mudaram os verbos e grande parte do léxico, ainda que haja palavras (como ‘água’) que permaneceram iguais. O que não se alterou é a estrutura da língua. A linguagem uigure e a turca partilham a mesma estrutura. Quando falo da identidade turca, falo da linguagem, e não quero que o dicionário integre termos europeus, americanos ou informáticos. Há 40 anos, o francês travou uma guerra contra a colonização do inglês. Eu pertenço à língua turca.

Ainda escreve dez horas por dia?

Sim. Claro que vou envelhecendo, mas escrever continua a fazer-me feliz, tal como quando tinha 20 anos e estava a trabalhar no meu primeiro romance. Com Albert Camus e Jean-Paul Sartre, penso que a vida diária é aborrecida. O interessante é viver na imaginação, na fantasia. Fiz a opção de viver assim e tive a sorte de conseguir impor-me como escritor profissional. Passo o tempo a imaginar como uma criança e a escrever como um adulto. E a ganhar dinheiro com isso. Que mais posso pedir?

Está a escrever um novo romance?

Estou, comecei há dois anos e interrompi. E nos últimos meses voltei ao trabalho. É um romance sobre a minha adolescência em Istambul. Tem corrido bem e tenho escrito dez horas por dia. Não há nada mais que possa fazer, além de dar entrevistas e responder a perguntas políticas! Não sei quando irei acabar. Se os meus amigos me perguntam isso e eu digo: “Em quatro meses”, eles contrapõem: “Então, vai demorar 40 anos.” Não confiam em mim, e fazem bem.

(Fonte: Expresso)

sábado, 31 de dezembro de 2022

"Os Livros que Devoraram o meu Pai", de Afonso Cruz, com tradução turca


A obra "Os Livros que Devoraram o meu Pai", de Afonso Cruz, encontra-se traduzida para turco.

"Passos questionadores tecidos de sonhos no caminho literário de Dostoiévski a Lao Tzu, de Bradbury a Chuang Tzu... Uma leitura obrigatória." - Şeref Atak, autor vencedor do prêmio FABİSAD GİO 2022 Novel Achievement, Efsun Street 137.

domingo, 13 de março de 2022

Novo romance de Elif Shafak publicado em Portugal


O livro “The Island of Missing Trees”, da escritora turco-britânica Elif Shafak, finalista do Prémio Costa e que se encontra entre os semifinalistas do Women's Prize for Fiction 2022, chega às livrarias portuguesas no dia 16 de março.

De acordo com a editorial Presença, que publica a obra da autora em Portugal, o mais recente romance de Elif Shafak vai ser lançado no mercado português com o título “A Ilha das Árvores Desaparecidas”.

A história passa-se na ilha de Chipre durante o ano de 1974.

Dois adolescentes, de dois lados opostos de uma terra dividida, encontram-se numa taberna, o único lugar, naquela cidade a que chamam casa, em que Kostas, grego e cristão, e Defne, turca e muçulmana, se podem encontrar secretamente e esquecer os problemas do mundo.

Naquele refúgio, bem ao centro, cresce uma figueira que testemunha tudo: os silêncios e as confissões, a felicidade dos encontros, a melancolia das partidas, o início da guerra civil, a destruição da cidade e a separação de Kostas e Defne.

Passam vários anos e a narrativa salta para Londres, onde vive Ada, que nunca conheceu a ilha onde nasceram os seus pais, e tem muitas perguntas sem resposta, sobre a história da sua família.

A única coisa que a liga à terra dos pais é a ‘Ficus carica’ que cresce no jardim de sua casa.

Segundo a editora, esta é a história de um amor proibido, num cenário de raiva e violência, mas é também a história que dá voz às gerações passadas, tantas vezes silenciadas pelos conflitos.

“A Ilha das Árvores Desaparecidas” é finalista do Prémio Costa, na categoria Romance, e é um dos 16 semifinalistas do Women’s Prize for Fiction, anunciados esta semana.

Elif Shafak já esteve por duas vezes entre os finalistas do Prémio Booker, com “A Bastarda de Istambul”, que a Presença vai reeditar, e com o romance “10 Minutos e 38 Segundos neste Mundo Estranho”, que também esteve nomeado para o Prémio Literário Internacional de Dublin.

Elif Shafak é uma escritora multipremiada que conta com 19 livros publicados, entre os quais 12 romances, traduzidos para 55 línguas.

Doutorada em Ciência Política, deu aulas em várias universidades na Turquia, nos Estados Unidos da América e no Reino Unido, nomeadamente em Oxford, onde é ‘honorary fellow’, e tem também um doutoramento em Humanidades, pelo Bard College.

Vice-presidente da Royal Society of Literature, Elif Shafak foi considerada pela BBC uma das mais influentes e inspiradoras mulheres da atualidade.

Defensora dos direitos das mulheres, LGBTQ+ e da liberdade de expressão, foi distinguida com a medalha de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras de França.

(Fonte: Lusa)

sábado, 26 de junho de 2021

"Unidos: 10 Escolhas para um Agora Melhor", de Ece Temelkuran, publicado em Portugal


Sinopse:

Este livro não é sobre a maneira como estragámos tudo, mas sobre o tipo de mundo em que queremos viver agora.

Em 2020, movimentos de protesto em todo o mundo revelaram as desigualdades incrustadas no tecido da sociedade. Os incêndios que devastaram a Austrália e a Califórnia tornaram claro que estamos no meio de uma catástrofe climática. A pandemia mostrou a todos a fragilidade da nossa economia e as teorias da conspiração que rodearam as eleições nos EUA demonstraram o mesmo em relação à democracia. Os governantes não têm respostas. Na realidade, os governantes são, muito frequentemente, o problema. A comentadora política Ece Temelkuran apresenta uma narrativa nova e convincente para o momento que atravessamos. Não para um futuro idealizado mas para o agora. E pede-nos que façamos uma escolha. Que escolhamos a determinação em vez da esperança; que enfrentemos o medo em vez de nos consolarmos com a ignorância; que poupemos a nossa energia para vigiarmos os que detêm o poder e os sistemas destrutivos por eles comandados, em vez de desperdiçarmos tempo a expelir fúria e insultos nas redes sociais.

Fonte: Bertrand

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Ahmet Hamdi Tanpınar: "O Instituto para o Acerto dos Relógios"


"O Instituto para o Acerto dos Relógios” (ed. Maldoror) é o cómico relato das dores de ocidentalização de um homem e do seu país, a Turquia, contada pelo olhar sagaz e ácido de um dos seus escritores maiores.

Ahmet Ahmdi Tanpinar tinha 22 anos quando, em Outubro de 1923, foi oficialmente fundada a República da Turquia. Foi com os seus próprios olhos que este antigo estudante de veterinária, posteriormente de literatura e professor universitário, viu a ocidentalização da Turquia. “O Instituto para o Acerto dos Relógios”, escrito em 1954 como uma série de folhetins para um jornal, é um sacrástico e bem humorado relato da ocidentalização da sociedade turca vista pelo olhar de Hayri Irdal, “o homem mais simples e tolo do mundo”, aprendiz de relojoeiro transformado em burocrata de uma nova instituição cujo propósito era abrir caminho para uma nova filosofia - “Vamos declarar que o ser humano é, antes do mais e acima de tudo, uma criatura que trabalha, e que trabalho é sinónimo de tempo.”

“Algumas pessoas vivem a vida tirando bom proveito do seu tempo, mas para mim o tempo era como uma perna estendida à minha frente e eu tropeçava nele.” Assim descreve o desafortunado Hayri a sua própria relação com o tempo, como uma repetição de azares e inconsequências, uma luta precária pela sobrevivência na babilónica Istambul. Com filhos e mulher para alimentar, Hayri vive de biscates, esquemas e trabalhos de escritório que mal chegam para sobreviver. Arrasta-se desencantado entre cafés e conversas, tenta regressar ao velho ofício, mas “Já não existia na minha cabeça qualquer ligação entre as palavras «vida» e «trabalho». Para mim a vida era um conto de fadas que inventamos de mãos bem afundadas nos bolsos.” 

Hayri relata as suas peripécias antes de se transformar num homem novo. Saltitava de capricho em capricho, acompanhado pelos seus conhecidos, que incluíam um farmacêutico alquimista, que tentava avidamente produzir ouro no seu próprio laboratório, e um profeta louco que encetou uma demanda por um tesouro escondido. Hayri ver-se-á envolvido num bizarro processo judicial, uma farsa kafkiana, que o entrega nas mãos de um prosélito de uma moderna religião - a psicanálise. Este é o ponto de viragem para o desesperado Hayri que, pela mão do psicanalista, trava conhecimento com aquele que irá ser o seu salvador. Hayri sofria muito, principalmente depois da morte da sua primeira mulher. Conhecia “todos os túmulos, campas e mausoléus de qualquer dos santos ou milagreiros que se podiam encontrar em praticamente qualquer bairro de Istambul”, mas pelas preces que lhes concedeu, nenhuma benção recebeu em troca. Nenhuma dessas entidades místicas “proporcionara qualquer bálsamo para as minhas feridas, nenhum mexera um dedo para acalmar a minha dor e o meu sofrimento na época em que eu lutava para alimentar a minha família.” Ao homem santo nada que lhe ofereçam na terra faz falta, “ofereciam tudo o que possuíam para viverem em condições mais abjectas do que as minhas, com o objectivo de disciplinarem a mente e fortalecerem a alma.” A estes interessa-lhes somente o que vem depois, almejam a eternidade a que a morte os há-de entregar, vivem fora do tempo, imunes à aceleração da civilização. “Enquanto eu lamentava não ter uma camisa limpa para vestir de manhã, Dede, o Descamisado, tratava de rasgar violentamente as suas no meio da rua, camisas que lhe tinham sido oferecidas.” Na fé e na abnegação, Hayri não encontrou pão para pôr na mesa, nem uma camisa limpa. Passou o tempo da miraculosa intervenção divina, é chegada a hora de o homem tomar as rédeas da providência. 

Halit Ayarci é para Hayri, tal como Ataturk o foi para a Turquia, o homem providencial. Sob a alçada de Halit, que pertence à casta daqueles que “agarram , que se apoderam, que devoram e despedaçam aquilo que lhes agrada, e que depois partem em busca de algo novo”, Hayri há-de passar de madraço imprestável para “assistente de direcção de uma das instituições mais inovadoras e beneméritas do mundo” - o Instituto para o Acerto dos Relógios. Halit Ayarci é acima de tudo um homem prático. Para tudo possui uma solução, com um sopro desanuvia uma tempestade. Para o longo rol de queixumes e tormentas de Hayri, Halit oferece o desembaraço vácuo do pantomineiro experimentado. “Como vê, não há problema que não tenha solução. Alguns pequenos ajustes à sua vida, um pouco de empreendedorismo, um pouco de esforço, uma pequena mudança no modo de ver as coisas - e voilà! Tudo se altera.” Perante os protestos de Hayri, Halit é taxativo “O que é que ganha ao aceitarmos a realidade tal como ela é? (...) O que posso fazer com o material que tenho à minha frente, com este mesmo objecto e tudo o que ele tem para me oferecer? É esta a pergunta a colocar." A resposta de Halit a esta mesma pergunta foi agarrar em Hayri e nos velhos adágios sobre a natureza do tempo que herdara do seu antigo mestre relojoeiro e contratá-lo como fundador do Instituto para o Acerto dos Relógios.

Hayri está feliz com o seu novo emprego, contente por “já não [andar] de café em café à procura de uma cara conhecida”, mas não compreendia o trabalho que tinha que realizar,  “um posto nascido de um punhado de palavras”. O antiquado Hayri não compreende o aperfeiçoamento da burocracia, as discussões para cargos directivos, a contratação de familiares de modo a “abafar à nascença todo o tipo de queixas”, a contratação de trabalhadores excedentários para, quando aparecerem os relatos de gastos excessivos do Instituto, tenham “dois ou três funcionários que possamos sacrificar tranquilamente, se quisermos mostrar ao público que as nossas intenções são as melhores.” O que Hayri não entende e que Halit insiste em tentar convencê-lo de, é que é chegada a era da burocracia, que esta atingiu o seu zénite, e que estão no “processo de fundar uma instituição absoluta - um mecanismo que define a sua própria função. O que poderia estar mais próximo da perfeição do que isso?” 

Hayri nunca será capaz de vestir a pele de burocrata perfeito. É demasiado conservador e antiquado para os padrões destes novos visionários. Nele convivem lado a lado o novo e o velho, o progresso e a crendice. Tanpinar acerta em cheio no modo como desenha a incredulidade de Hayri perante o absurdo que o rodeia. É pelo olhar espantado dele que vemos o presidente da câmara a inspeccionar os escritórios ainda vazios de gente do Instituto e a “converter meia dúzia de passos até à sala seguinte numa viagem de meia hora”, enquanto examina “candeeiros de escritório (ainda sem lâmpadas), que prometiam longas e ininterruptas noites de trabalho”. Sente-se vivamente a indignação de Hayri diante dos delírios hollywoodescos da esposa, que vivia a vida como se fosse uma das atrizes que via nos filmes, que se convenceu que Hayri era parecido com Napoleão porque ambos adoravam azeitonas secas, e que disse numa entrevista que o marido era “um razoável cavalheiro, um excelente nadador e de vez em quando jogava ténis”. São palpáveis as suas hesitações entre acreditar ou não, entre entregar-se aos factos ou repudiá-los em absoluto. Hayri mantém-se fiel a Halit, que lhe exige “crença genuína na importância do nosso trabalho”, que espera dele que acredite piamente na existência de Ahmet, o Cronologista, velho sábio sobre o qual Hayri escreveu uma biografia, mas que nunca existiu. “Duvidar da sua existência numa fase tão adiantada teria sido demasiado perturbador.”

O Instituto, que começava a internacionalizar-se, haveria de se esboroar pela base. Hayri, que se reinventara como uma espécie moderna de homem da renascença, artesão em vez de artista, foi responsável pela arquitectura do projecto megalómano e totalmente absurdo da nova sede do Instituto. A maquete do projeto, feita em casa com a ajuda do filho, era feita com caixas de fósforos. Quando se equacionou que Hayri utilizasse as suas recém adquiridas capacidades de engenheiro e arquitecto para construir um bairro para os trabalhadores do Instituto, a insurreição começou. “Quando o que estava em jogo era dinheiro público [as pessoas] mostravam-se generosas, entusiásticas, orgulhosas do meu trabalho e encantadas com as suas inovações; mas quando a coisa afectava os seus interesses pessoais, mudavam de partido. Aliás, até deixaram de dar ouvidos a Halit Ayarci”. O Instituto não desapareceu porque as suas intenções se tornaram obsoletas, aliás, nem essas intenções seriam suficientes para que o Instituto tivesse sido formado em primeiro lugar, “Qual é a necessidade de um instituto como este quando é tão fácil saber que horas são?”, mas antes porque enquanto instituição burocrática se tornou demasiado ufana para repetir o contorcionismo filosófico que tornou possível a sua criação. 

(Fonte: Jornal I)

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"Como Perder um País", de Ece Temelkuran, traduzido para português


"Como Perder um País" é um livro necessário e urgente. É uma denúncia da ascensão do populismo de direita. Um apelo urgente à ação. Um verdadeiro guia de campo para identificar os padrões e mecanismos astuciosos da vaga de populismo que varre o mundo atual. 

Propondo respostas globais e alternativas às questões políticas prementes – e com frequência paralisadoras – do nosso tempo, Temelkuran examina a ideia ardilosa do "povo real", a infantilização da linguagem e dos debates, a maneira como o riso pode ser enganador, e os perigos de subestimarmos o nosso adversário. Entretecendo memória, história e argumentos claros, cria uma urgente e eloquente defesa da democracia.

Fonte: Temas e Debates


quinta-feira, 12 de abril de 2018

D. Quixote vai editar romance "Istambul, Istambul" de Burhan Sönmez


O romance "Istambul, Istambul", do autor turco Burhan Sönmez, primeiro vencedor do prémio conjunto da Feira do Livro de Londres, British Council e Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, vai ser editado em Portugal pelas Publicações D. Quixote.

O anúncio foi feito pela editora do Grupo LeYa, que planeia publicar a tradução portuguesa no início de 2019, com a presença do autor em Portugal.

"Istambul, Istambul" é o primeiro título de Burhan Sönmez publicado em Portugal, e constitui uma crítica à Turquia contemporânea.

O escritor nasceu em 1965, nos arredores de Ancara, e estreou-se com "North" (2009), título ao qual se seguiu "Sins and Innocents" (2013), antes de "Istambul, Istambul" (2015).

O prémio de literatura do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), com o British Council e a Feira do Livro de Londres (EBRD Literature Prize), foi criado em 2017, com o valor de 20 mil euros, e foi atribuído pela primeira vez este ano.

O prémio BERD de Literatura, que toma a sigla original do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (EBRD), tem por objetivo reconhecer e promover "a extraordinária riqueza, profundidade e variedade da cultura e história de alguns dos países em que a instituição investe", lê-se na sua página na Internet.

O galardão visa ainda realçar "a relevância dos escritores que retratem as aspirações e desafios que as populações enfrentam, nessas regiões".

Esta distinção reconhece igualmente "o talento e o papel vital desempenhado pelo tradutor [da obra vencedora], em tornar as histórias desses países acessíveis ao público" de língua inglesa, seguindo o modelo do Man Booker International Prize.

O romance de Burhan Sönmez venceu sobre os outros dois finalistas da primeira edição do prémio, "All the World's a Stage", do russo Boris Akunin, e "Belladonna", da croata Dasa Drndic.

O romance "conta-nos a história de quatro prisioneiros que se encontram detidos nas celas subterrâneas de um centro de tortura: um taberneiro, um médico, um estudante e um ativista político".

"Na tradição de obras como 'Decameron' [conjunto de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio, entre 1348 e 1353], os quatro detidos, quando não estão a ser torturados, contam histórias sobre a cidade de Istambul e os motivos que os levaram à prisão, a forma por eles encontrada de melhor passarem o tempo. A narrativa subterrânea transforma-se então gradualmente naquilo que se passa no exterior".

O BERD foi fundado em 1991, após a queda do Muro de Berlim, com o objetivo ajudar a construir economias de mercado em recém-criadas democracias de 27 países da Europa Central à Ásia Central. A aceitação dos empréstimos do BERD implica o compromisso com os princípios democráticos.

(Fonte: DN)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Elif Shafak tem Portugal no coração

Alguns dos dois milhões de seguidores no Facebook da escritora turca Elif Shafak são leitores portugueses, que em apenas um ano teve traduzidos em Portugal dois romances: "A Bastarda de Istambul" e "A Cidade nos Confins do Céu". Não será por acaso que Shafak considera que "as pessoas, a cultura, as artes e a literatura de ambos os países estão no meu coração", pois além do sucesso literário em Portugal ela conhece bem o país por ter passado cá algumas temporadas em criança. Não consegue deixar de referir que "tanto as palavras como a imaginação dos dois povos se interligam" e que, confessa, "gostaria de voltar a Lisboa logo que possível".

Entretanto, Elif Shafak divide-se entre Londres e Istambul: "Sou uma nómada que vive entre as duas cidades e culturas e que acredita ser possível sermos cidadãos mundiais. Não consigo deixar de ser uma cidadã de Istambul e de Londres ao mesmo tempo. Por vezes, sonho nas duas línguas, mesmo que escreva em inglês porque me ajuda a ter uma perspetiva mais clara da Turquia, livre de inibições culturais. Assim, sinto-me mais livre."

Pergunta-se à escritora se a atualidade turca, de atentados e terrorismo, a irão inspirar alguma vez num romance, ao que responde: "Estou a terminar um romance que é bastante diferente de "A Cidade nos Confins do Céu", pois trata de um tema contemporâneo e é um espelho da sociedade turca atual. Até responde a uma questão que será de âmbito mundial, porque é a história de uma jovem que busca respostas para esta época de fanatismo em torno de Deus."

Aproveita-se o rumo das respostas para comparar o palácio do sultão deste romance com os ideais imperialistas do atual primeiro-ministro, Erdogan: "É verdade que pode haver comparações, mesmo que na realidade não vivamos mais em tempos imperiais. A Turquia tem estado a deslizar para o passado e a fugir de uma democracia pluralista e liberal. Estou preocupada com a minha pátria e que possamos perder a nossa democracia. Só para compararmos, a arquitetura do império Otomano era mais avançada do que a atual. Essa situação não deixa de ser irónica".

Segue a receita de "A Bastarda de Istambul": uma boa história por uma boa contadora. É verdade?

Obrigada...Tenho um passado multidisciplinar: relações internacionais, história cultural, estudos sobre as mulheres e filosofia política. Estou interessada em histórias e os seus silêncios, portanto cada romance é uma nova jornada. Até porque os livros fazemos mudar também o escritor, não é apenas aos leitores que causam esse efeito! Quando acabo um romance já não sou a mesma pessoa.

Prefere escrever no passado, neste caso no império Otomano, ou no presente?

Eu gosto do entendimento circular do tempo Sufi, onde tudo está interligado, seja passado ou presente. Por isso, podemos escrever sobre o passado mas, de facto, é sobre o presente que falamos. Ou quando escrevemos sobre a atualidade e reproduzimos o passado e as memórias de outro tempo. Eu quero dar voz ao silêncio da História, tanto que nos meus livros os sem voz são sempre ouvidos. Principalmente os das minorias: sexual, étnica ou cultural.

O protagonista é um jovem. É fácil pensar e escrever como homem?

Desde que consiga interiorizar o personagem tanto me faz o seu género. Essa é a beleza da ficção, sempre aberta a múltiplas possibilidades e a podermo-nos transcender. Enquanto escrevo, gosto de ir além da identidade com que nasci e evitar as políticas identitárias. Posso tornar-me alguém de outra religião, sexo, classe social ou nacionalidade. Sou livre! Cada vez que chego ao fim de um dia de escrita, eu acredito que o escritor precisa de ser bissexual para conter ambas as vozes masculina e feminina.

O jovem protagonista tem a cumplicidade das mulheres do palácio. Porque prefere contar a história através do olhar feminino?

Ao longo dos tempos, as mulheres sempre foram as melhores contadoras de histórias; transferindo-as - e a muitos segredos também - das bisavós para as avós e gerações seguintes, tanto no Oriente como no Ocidente. Eu tenho um grande respeito pela história oral porque cresci com a minha avó e lamento que muitas destes relatos se tenham perdido ou ficado por registar. Sempre os ouvi com sofreguidão e considero que uma parte de mim deseja que essa tradição se mantenha a todo o custo. Até porque na Turquia há um fosso entre a cultura escrita e a oral muito profundo. Venho de uma sociedade de matriz patriarcal, pois a Turquia é uma sociedade dominada pelos homens, muito sexista e homofóbica. Daí que pretenda dar nos meus livros uma voz potente às mulheres e às minorias sexuais.

O romance "40 regras do Amor" foi um grande sucesso na Turquia apesar dessa sociedade machista"!

A Turquia está a atravessar uma grande fase de mudanças e há bastante tensão numa sociedade assim. Está bastante dividida e polarizada, o que provoca na população uma sensação de claustrofia, de ficar fechada, até diria com um pendor isolacionista. Além de criar um grande sentimento nacionalista, de religiosidade e de estabelecimento de dogmas. Num ambiente destes, um romance sobre o amor gerou muita curiosidade.

A religião está sempre presente. É impossível fugir-lhe no islão?

Além da história, é a religião que está sempre presente. Faço sempre uma distinção entre a religiosidade e a espiritualidade. Nesta última, estou interessada, tal como no misticismo. Isso não quer dizer que seja religiosa, pois não sou mesmo uma pessoa religiosa. O que me interessa é a essência. Posso dizer que sou inspirada pelo misticismo islâmico, pelo misticismo cristão, pelo misticismo judaico, pelo taoismo e outros. Gosto dos heréticos e dos heterodoxos de cada religião, porque essas vozes vão sendo perdidas no decurso do tempo. Elas acreditavam que a espiritualidade era pessoal e exigia uma viagem individual. Eram vozes de paz, que deveriam falar mais alto.

Este romance, agora traduzido para português, é considerado o seu mais ambicioso. Concorda?

É o que a crítica refere, mas como sou uma contadora de histórias sinto-me ligada a todos eles. O meu favorito é sempre aquele que me falta escrever.

Que pesquisa teve de fazer para escrever no passado de há séculos?

Este foi dos livros que mais investigação exigiu. Tive de ler muito sobre a arquitetura, o islão, saber como era a vida dos ciganos no império Otomano, o harém, os animais, etc. Era preciso ter atenção para todos os detalhes em causa.

Colocar um romance no império Otomano seduz os leitores turcos?

A Turquia é uma sociedade de amnésia coletiva. As pessoas não estão interessadas no passado ou, quando o estão, é para hiper romantizarem essa época. Dificilmente se encontra quem queira debater este tema de forma crítica porque a memória é uma grande responsabilidade. Daí que os escritores tenham um papel muito importante nestas terras de amnésia coletiva.

Adapta os seus livros quando saem na Turquia?

Eu escrevo em inglês, por isso a tradução para o turco é feita por um tradutor especializado. Leio a tradução e reescrevo ao meu ritmo. Até pode parecer um pouco complexo este processo, mas exijo que o texto fique no meu tom.

A Istambul que descreve no romance é muito diferente da cidade e das pessoas atuais?

Há semelhanças muito estranhas, daquelas que os leitores se apercebem facilmente. Mas há também diferenças muito grandes, que não se apreendem logo. Eu retrato um arquiteto do século XVI, Sinan, que era um génio e um grande urbanista. Era mais iluminado que os profissionais desta área atuais, que fizeram de Istambul um estaleiro de construção que pouco respeitam. Se ele regressasse, ficaria horrorizado com o estado de Istambul. Provavelmente, choraria.

Este romance é também sobre a destruição e a preservação das memórias através da arquitetura?

Sim, numa sociedade que já disse ser de amnésia coletiva, a arquitetura preserva as memórias. O que cria uma responsabilidade aos arquitetos e escritores. Estamos a tratar do que foi esquecido e é preciso providenciar a continuidade numa sociedade que se altera de forma descontrolada. Por isso é que digo no romance que Istambul é uma cidade de esquecimentos fáceis.

(Fonte: DN)

domingo, 1 de março de 2015

Faleceu o escritor turco Yaşar Kemal



Morreu um dos gigantes da literatura turca. Yaşar Kemal tinha 92 anos e era de origem curda.
Publicou  o romance “Memed, Meu Falcão” em 1955, obra que o aclamou como escritou e que foi traduzida em mais de 40 línguas, nomeadamente em português. Recebeu 19 prémios literários, e foi o primeiro escritor turco candidato a um prémio Nobel da Literatura, em 1973. 
Foi casado com Thilda Serrero, judia sefardita, que traduziu 17 das suas obras para a língua inglesa.
Faleceu num hospital de Istambul, onde se encontrava internado desde Janeiro, na sequência de complicações provocadas por uma infecção pulmonar e uma arritmia cardíaca.

“Durante toda a minha vida, o meu único sonho foi escrever um pouco mais, um pouco melhor”, disse em 2012, depois de ter terminado a sua última obra.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A inquietação de Elif Şafak

A escritora turca Elif Şafak, nomeada para o Orange Prize for Fiction, com "A Bastarda de Istambul", o seu primeiro romance a ser editado em Portugal pela Jacarandá Editora, tem aparência cândida, transmite segurança nas suas palavras, fala pausadamente, parece apaziguada. Mas, à conversa com a autora, a mais lida na Turquia, transparece inquietação. O que um rosto transmite nem sempre corresponde ao âmago.

 
 
Şafak, nascida em Outubro de 1971, tem já um longo currículo. Com 13 livros publicados - "The Architect's Apprentice" é o último, mas ainda só está disponível no Reino Unido -, oradora, professora universitária, activista política e social, falou ao Diário Digital sobre o que a aquieta. A viver entre Londres e Istambul, revolta-se com o sexismo na Turquia, o machismo dominante. E também com a persistente negação do genocídio de milhões de arménios, que o Governo turco descreveu como sendo "simplesmente incidentes desagradáveis". O massacre entre 1914 e 1918 foi, inclusivamente, apagado dos programas escolares.
Para Elif Şafak, tal como o Irão negou o Holocausto, também o Governo turco encobre o genocídio, tentado fazer com que caia no esquecimento. E parece estar a consegui-lo. O povo já não fala do seu passado, da sua história; mas também, mesmo que quisesse, não seria capaz, foi como que obliterado. A autora revolta-se, apela à necessidade de redenção e, sobretudo, à imprescindibilidade de os turcos se solidarizarem com o povo arménio. "É urgente retomar o diálogo entre os turcos e os arménios", enfatiza.
Nascida em França, a sua mãe desistiu dos estudos depois de casar com um turco e irem viver para Estrasburgo. Separar-se-iam um ano depois. A mãe, com a escolaridade incompleta, regressou a uma Turquia sexista em que o papel das mulheres, ainda hoje, é ficarem em casa a tomar conta dos filhos. Felizmente, a avó de Elif, apesar de ter poucos estudos e acreditar em misticismo, fez questão que a filha frequentasse a faculdade e assumiu a tarefa de criar a pequena Elif. A autora transpõe esse direito à emancipação para a sua escrita. Recusa veemente que os seus textos sejam autobiográficos, mas como apartar-nos definitivamente das nossas próprias experiências? E aqui sou eu a questionar-me.
Em "A Bastarda de Istambul", o foco central é uma família, a Kazanci, toda ela constituída por mulheres; quatro gerações ao todo. Sobre os homens recai uma maldição, morrem todos por volta dos 40 anos. E porquê? Por nenhuma razão em particular, salienta, a não ser a de dar maior ênfase às mulheres. A escritora é conhecida por misturar tradições narrativas do Ocidente e do Oriente, por dar voz às minorias, às mulheres, aos imigrantes e às subculturas. E isto não podia estar mais assumido no livro que acaba de publicar em Portugal.
A narrativa começa com Asya Kazanci. Aos 19 anos, solteira, entra num consultório médico em Istambul para fazer um aborto. Por ter escrito sobre a interrupção da gravidez, Elif foi acusada de insultar a lei turca. Foi constituída arguida por um crime cuja sentença pode ir até três anos de prisão. Foi surreal, afirmou. O seu advogado "teve que ir a tribunal defender personagens fictícios". Acabaria por ser ilibada. Assume que abordar o aborto no seu livro é um manifesto. "O governo turco quis promulgar uma lei que abolisse o aborto, mas sem dar qualquer tipo de apoio às mulheres". A Turquia, a do passado e a dos dias de hoje, é um país onde "não se pode falar sobre incesto, violações, abusos sexuais nem violência doméstica". Elif Şafak critica duramente os políticos, observa que estão desfasados da realidade. "As mulheres ricas que queiram fazer um aborto viajam para o estrangeiro; as pobres recorrem a meios ilegais e sujeitam-se a morrer."
E será que se a Turquia tivesse conseguido aderir à União Europeia o panorama seria diferente? A escritora apoiou sempre a adesão como um ideal. "Há alguns anos até teria sido possível", sustenta. Mas o seu país falhou em cumprir os requisitos. E di-lo inabalavelmente. Mas também responsabiliza os políticos europeus. Responsabiliza-os por não terem percebido que seria uma mais-valia ter a Turquia no bloco comunitário. Mas, por ora, "o país terá que fazer um grande esforço, abraçar a democracia em pleno, rever a sua política em relação às minorias, à liberdade de expressão, aos direitos humanos". Desde o pedido da adesão da Turquia à UE, em Abril de 1987, a autora assistiu "a um enorme retrocesso", especialmente no que diz respeito à liberdade de expressão. "Todos os escritores na Turquia sabem que irão sofrer consequências se escreverem o que querem", sublinha.
Em "A Bastarda de Istambul", todos os capítulos falam sobre comida - os títulos são, inclusivamente, nomes de ingredientes (romã, damascos secos, amêndoas, cascas de laranja, pinhões, trigo, pistácios, avelãs torradas…), porquê? Elif Şafak, embora muito magra, gosta de comer (sim, os olhos brilham quando fala sobre comida, e sorri), mas não sabe cozinhar. O que não invalida que não leia livros sobre culinária. Aliás, diz-se muito eclética enquanto leitora; lê desde ensaios literários, livros sobre misticismo, neurociência, sobre todas as disciplinas que estou, e tem muitas referências - Milan Kundera é um deles. Mas, em "A Bastarda de Istambul", discorrer sobre comida assume-se como uma metáfora política. Todos os ingredientes mencionados "coexistem nas refeições" descritas e transformam-se em coisas belas. "Falar sobre comida equipara-se à partilha do pão e da água", é um momento solene. "A minha intenção aqui é igualar a comida como alimento para a alma."
Elif gosta de parar entre livros, de respirar. Actualmente a promover "A Bastarda de Istambul" - foi lançado na Turquia em 2007, publicou, entretanto, em 2014 no Reino Unido "The Architect's Apprentice", com a chancela da Penguin. Relativamente à obra que foi a sua estreia em Portugal, diz ter recebido várias ofertas para que fosse transposto para o cinema. Mas, tal como já foi mencionado, gosta de esperar. Talvez um dia, deixa em suspenso. Entretanto, o livro já foi adaptado para o teatro em Itália, e a peça deverá estrear este Verão.
 
(Fonte: Diário Digital)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Elif Şafak em Portugal

A escritora Elif Şafak, autora de "A bastarda de Istambul", está terça-feira em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, para uma conversa, aberta ao público, com a jornalista Clara Ferreira Alves.
 
 
O encontro, sob o mote "Escrever sobre tabus num mundo multicultural", está agendado para as 19:00, no auditório 3 da Fundação, à Palhavã.
A Fundação refere-se à autora turca como "uma das vozes mais originais da literatura contemporânea". O livro "A Bastarda de Istambul" foi publicado em Portugal no passado dia 09 de Janeiro, pela Jacarandá, chancela da Editorial Presença.
O ponto de partida da narrativa, cuja paisagem é Istambul, é uma jovem solteira de 19 anos, Asya Kazanci, que decidiu ir a um consultório médico, pois pretende interromper voluntariamente a gravidez. "O que acontece naquela tarde mudará para sempre a sua vida", escreve a editora.
A autora conta, então, a história da família Kazanci, 20 anos depois daquela decisão. A família Kazanci é uma casa apenas de mulheres, pois todos os homens morrem pelos 40 anos. Asya tem um negócio de tatuagens, outra mulher, Banu, é vidente, Feride é hipocondríaca. Os segredos da família são revelados quando uma prima arménio-americana, Armanoush, surge em visita.
Segundo a editora portuguesa, Şafak é "a autora que mais vende na Turquia, com livros publicados em mais de 40 línguas".
"Şafak mistura as tradições narrativas do Ocidente e do Oriente, dando voz às mulheres, às minorias e às subculturas", afirma a Jacarandá, chancela que começou a sua publicação em Junho no ano passado, e é dirigida por Simona Cattabiani, que, em finais de 2013, deixou a editora Civilização.
Este romance valeu à escritora uma nomeação para o Prémio Orange, na área de Ficção.
Elif Şafak nasceu em Estrasburgo, França, em 1971, é licenciada em Ciência Política e tem lecionado em várias universidades dos Estados Unidos, Reino Unido e Turquia. Tem também escrito para diversas publicações, nomeadamente The Guardian, The New York Times e The Independent.

(Fonte: RTP)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Elif Şafak já tem livro editado em Portugal

"A Bastarda de Istambul" é o primeiro livro de Elif Şafak editado em Portugal. A escritora turca é aclamada pela crítica como uma das vozes mais originais da literatura contemporânea, tanto em língua turca como em língua inglesa. A obra foi nomeada para o Orange Prize for Fiction. "Um verdadeiro prazer", escreveu o The Times.

 
 
"Numa tarde de chuva em Istambul, uma mulher entra num consultório médico. 'Preciso de fazer um aborto', declara. Tem dezanove anos de idade e é solteira. O que acontece naquela tarde mudará para sempre a sua vida."
 
(Fonte: Diário Digital)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Orhan Pamuk recebeu prémio em Lisboa


Na sua primeira visita oficial a Portugal, para receber um prémio que reconhece o seu contributo para o património cultural europeu, o Nobel da Literatura deixou um recado: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”
 
O escritor turco Orhan Pamuk defendeu esta sexta-feira em Lisboa que “a Europa precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores fundamentais”.
O Nobel da Literatura de 2006, autor de uma obra literária sobre a procura de uma identidade turca, dividida entre o Ocidente e o Oriente, entre modernidade europeia e tradição muçulmana, recebeu esta noite o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural na Fundação Calouste Gulbenkian, com um discurso em que prestou tributo à tradição cultural europeia, mas que terminou com uma nota crítica.
“A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”, disse o escritor, na sua primeira visita oficial a Portugal. “E temos de ter uma discussão séria sobre esses valores fundamentais.”
Pareceu claro que era um recado para a Europa – não por acaso, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, estava presente na primeira fila – embora Pamuk não tenha especificado o que queria dizer com isso, talvez para não correr o risco de soar pouco diplomático. Mas o que Pamuk quis dizer terá talvez a ver com o que respondeu numa entrevista em Dezembro do ano passado, quando um jornalista colombiano lhe perguntou se se sentia europeu. “Não sei. Não penso nesses termos. Em primeiro lugar, sinto-me turco. E um turco tanto se sente europeu como não europeu. Acredito numa Europa que não se baseia no cristianismo, mas no Renascimento, na modernidade, na ‘liberdade, igualdade, fraternidade’. Essa é a minha Europa. Acredito nessas coisas e quero fazer parte delas. Mas se a Europa é a civilização cristã, lamento: nós, turcos, não queremos entrar.”
No debate sobre a hipotética entrada da Turquia na União Europeia, Pamuk – um turco cosmopolita e laico que se autodefine como um “muçulmano, mas apenas no sentido cultural” – emergiu como um intérprete do diálogo entre civilizações. Daniel Cohn-Bendit disse que foi Pamuk quem o ajudou a “perceber a importância de a Turquia aderir à União Europeia”. Até mesmo o ex-Presidente americano George Bush se referiu à obra do escritor como “uma ponte entre culturas”, notando que ela mostra como “pessoas noutros continentes e civilizações” são “exactamente como nós”.

Em defesa das pessoas normais
Atribuído pela primeira vez no ano passado ao escritor italiano Claudio Magris, cuja obra é notória pela sua deambulação cultural (como a de Pamuk), o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, no valor de dez mil euros, é uma iniciativa da organização europeia de defesa do património Europa Nostra em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa, com o objectivo de distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, tenha contribuído para a divulgação, defesa e promoção do património cultural e dos ideais europeus.
O presidente do Centro Nacional de Cultura e membro do júri, Guilherme de Oliveira Martins, notou que a atribuição do prémio a Pamuk teve em conta “o cidadão apaixonado pela defesa do património cultural, mais do que o grande romancista”, embora o seu discurso tenha sido dominado por referências e citações constantes do último romance do escritor, O Museu da Inocência (ed. Presença), publicado em 2008.
Pamuk confessou-se “lisonjeado e honrado” pela atribuição do prémio, que lhe foi entregue pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.
Falando em inglês, o escritor lembrou como concebeu um romance e um museu ao mesmo tempo, referindo-se a O Museu da Inocência, ficção sobre um homem que colecciona todos os objectos tocados pela mulher que amou e que perdeu e ao edifício com o mesmo nome que abriu em Istambul, a cidade onde nasceu e onde vive, com objectos que foi juntando para o processo de escrita do livro e que é hoje, também, um museu sobre a vida quotidiana da classe média turca na segunda metade do século XX.
“Os verdadeiros romances centram-se em pessoas normais, no seu dia-a-dia”, disse. Com a entrada na modernidade, a literatura deixou de se interessar pelos reis e poderosos para se ocupar da história de pessoas simples, como se fossem reis – Joyce fê-lo em Ulisses, notou. Pamuk defendeu que os museus deviam fazer o mesmo. “Deixem de prestar atenção à nação e aos reis e dediquem-se aos pequenos detalhes das nossas vidas quotidianas. É por isso que defendo que precisamos de pequenos museus”, disse.
Nesta segunda edição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, foi também atribuído um prémio especial de carreira ao historiador de arte José-Augusto França por ter “fomentado a tomada de consciência e o sentimento de orgulho relativamente à arte portuguesa, relacionando-a com a cultura europeia e mundial”. O júri distinguiu ainda o jornalista holandês Pieter Steinz com uma menção especial pela criação de uma enciclopédia de ícones culturais europeus.
 
(Fonte: Público)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

José Saramago traduziu livro de Nâzım Hikmet


O livro "Os Românticos: A Vida é Bela meu Velho...", de Nâzım Hikmet [1902-1963], foi traduzido do Francês para o Português por José Saramago, e publicado pela Editora Caminho em 1985.

Da Obra

"A cidade vive uma das suas noites de Inverno, sem suspeitar do drama que vai rebentar: e não só Moscovo, mas Paris, Nova Iorque, e Istambul, e Singapura, e Pequim, todas as cidades do mundo inteiro o ignoram ainda. Todas continuam a viver a sua vida, umas em plena luz, outras ainda no alvorecer, e noutras sente-se já o calor do meio-dia, todas com as suas preocupações, as suas alegrias, as suas esperanças, os seus desgostos, os seus automóveis, os seus fiacres e os seus riquexós, e as suas fábricas e as suas lojas e as suas casas de pedra ou de madeira, e todas essas pessoas que vão para o trabalho ou que voltam para casa, ou passeiam, ou estão sentadas nos cafés, ou se beijam nos parques ou enchem os cinemas, e os que nascem, e os que morrem. Salvo algumas pessoas na Terra, ninguém ainda sabe a notícia que vai abalar o mundo."

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Serdar Özkan tem dois livros publicados em Portugal



Serdar Özkan nasceu na Turquia em 1975. Formou-se em Marketing e Psicologia nos Estados Unidos e continuou os seus estudos de Psicologia em Istambul. Desde 2002, dedica-se inteiramente à escrita. O seu primeiro livro, "A Rosa Perdida" (Kayıp Gül) é um fenómeno de vendas mundial. Foi traduzido em 35 línguas e publicado em mais de 40 países.

Depois do sucesso de "A Rosa Perdida", a Europa-América publica o novo livro de Serdar Özkan, "Quando a Vida Se Ilumina" (Hayatın Işıkları Yanınca).

sábado, 27 de setembro de 2008

Orhan Pamuk: "A Casa do Silêncio"

"A Casa do Silêncio" (Sessiz Ev, 1983) é o primeiro romance de Orhan Pamuk traduzido no Ocidente. A sua versão portuguesa foi agora editada em Portugal pela Editorial Presença.

Sinopse: Numa pequena cidade portuária do norte da Turquia, convertida em estância turística à ocidental, existe uma casa meio arruinada onde vivem Fatma, uma viúva nonagenária, e Recep, o anão que cuida dela. Todos os anos, no Verão, a idosa recebe os netos vindos de Istambul, três personalidades completamente distintas. A história decorre num ambiente de grande agitação política, cuja conflitualidade se reflecte nas experiências dos jovens, enquanto Fatma, refugiada nas suas recordações, nos permite articular passado e presente.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Orhan Pamuk: "Istambul: Memórias de uma Cidade"



A tradução portuguesa da obra "Istambul: Memórias de uma Cidade" (İstanbul: Hatıralar ve Şehir, 2003) do escritor turco Orhan Pamuk, foi agora publicada em Portugal pela Editorial Presença.

Sinopse: O que significa nascer num determinado lugar do mundo e em determinado momento da História? Pamuk reflecte sobre esta questão que para ele se reveste de importância fundamental, ciente de que nela se oculta a misteriosa alquimia entre a formação da sua própria personalidade e a cidade onde sempre viveu. O autor progride de forma mais ou menos cronológica desde os anos da infância até à entrada na Universidade, culminando na sua decisão de se tornar escritor. Tudo isto acontece sobre o fundo sempre presente da cidade, que Pamuk constantemente percorre e explora. Ao longo das páginas de Istambul encontramos também um admirável acervo de fotografias a preto e branco – a captar a dispersão da luz no meio das sombras por entre ruínas e esplendorosos monumentos do tempo do Império Otomano.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Mais um livro de Orhan Pamuk traduzido para Português


O Meu Nome é Vermelho (Benim Adım Kırmızı, 1999), Editorial Presença (2007)
Trata-se de uma obra largamente premiada: Internacional IMPAC Dublin Literary Award (2003); Prémio do Melhor Livro Estrangeiro (França, 2002); Premio Grinzane Cavour (Itália, 2002).
Em Istambul, nos últimos anos do século XVI, o Sultão encomenda um livro secreto que magnificamente celebre a sua vida e o seu império. São convocados os mais célebres miniaturistas otomanos para iluminarem o livro. Um crime é cometido.
O romance, narrado numa polifonia de vozes, abre com as reflexões do homem que foi assassinado, depois, outros narradores se lhe seguem. O leitor encontrará inesperadas personagens-narradoras não isentas de irónica provocação. Um livro estruturado em múltiplos níveis, mesclando enredo policial, intriga amorosa, e puzzles filosóficos.

Ver aqui mais obras de Orhan Pamuk traduzidas para Português.

Escritores turcos traduzidos para Português: Nâzım Hikmet

Poemas da Prisão e do Exílio, Nâzım Hikmet - Editorial & Etc (2000)

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Escritores turcos traduzidos para Português: Orhan Pamuk

Em Portugal, são três as obras de Orhan Pamuk traduzidas para Português.



"A Cidadela Branca" (Beyaz Kale)

"Os Jardins da Memória" (Kara Kitap)

"A Vida Nova" (Yeni Hayat)


Está prevista para este ano a publicação da tradução portuguesa do livro "Neve" (Kar), também de Orhan Pamuk.


Também se encontra à venda, em Portugal, a tradução espanhola, francesa e inglesa destes e de outros livros do autor que ainda não foram traduzidos para Português. É o caso de "Neve" (Kar), "Istambul, Memórias e Cidade" (İstanbul, Hatıralar ve Şehir'') e "O Meu Nome é Vermelho" (Benim Adım Kırmızı).