segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Sono de Inverno de Nuri Bilge Ceylan...

 
 Alto! Parem as máquinas porque isto é Cinema!... É o que se apraz dizer depois de se assistir a este estupendo “Sono de Inverno”, do realizador turco Nuri Bilge Ceylan, o mesmo do belíssimo “Era uma Vez na Anatólia”. Desde a interpretação à qualidade literária dos diálogos, sem esquecer uma belíssima fotografia, em especial de interiores, tudo parece perfeito no vencedor deste ano da “Palma de Ouro” de Cannes. E os dois actores principais, Haluk Bilginer y Melisa Sözen estão, simplesmente, soberbos.
O cenário é a Capadócia, na Turquia profunda. Numa aldeia troglodita, os habitantes vivem em casas escavadas na rocha, assim se protegendo melhor do frio e do calor, consoante a época do ano. Mas estamos no Inverno, tempo duro, com a neve pintar de branco os “cones de fadas” e a dificultar a circulação dos habitantes. É tempo de hibernar, de ficar por casa junto à lareira, usando o tempo livre para questões mais pessoais… E é aqui que os problemas emergem. Como em qualquer sociedade, há ricos e pobres, há novos e velhos, há diferentes perspectivas do que é a Vida… Aydin, a personagem central, é dono de um hotel e de inúmeras propriedades arrendadas, é rico, gosta de livros e de escrever, já foi actor e está casado com Nihal, uns vinte anos mais nova. A experiência dos anos faz toda a diferença, quer na forma como Aydin aborda as dificuldades com um arrendatário faltoso quer no seu relacionamento com a jovem esposa. São dimensões mentais e processos de maturação interior opostos, mas são também exemplos simbólicos das reacções e das relações humanas perante a realidade material e a realidade imaterial. Aliás, o ponto de vista do filme é sempre o de Aydin, como o próprio realizador expressamente nos transmite num dos planos iniciais, ao fazer a câmara entrar na cabeça da personagem. Aydin tem-se em conta, acha-se esclarecido e até o é, mas não é exactamente essa a imagem que os outros têm dele, incluindo a sua mulher e a sua irmã. Habilmente, o realizador Nuri Ceylan ergue vários pólos à volta de Aydin, cuja interligação constitui o motor do trama de “Sono de Inverno”.
Não é comum verem-se referências, expressas e tácitas, a Dostoievsky, a Shakespeare, Tchekov ou a Moliére num filme contemporâneo, como as que aqui temos. Como também não é comum assistir-se a uma discussão de meia-hora, tensa e profunda mas surpreendentemente serena, entre um casal. Não há berros, não há insultos, não há agressões, mas sim um homem e uma mulher em sucessivas trocas de argumentos, de olhares, de queixas, de dores. Este diálogo, à lareira (o “lar”…) entre Aydin e Nihal dura, repito, uma boa meia-hora, ininterrupta, e não há sombra de tédio neste momento cinematográfico absolutamente brilhante. E que dizer noutro momento magistral, aquele em que um criador de cavalos tenta tirar da água um equídeo selvagem, acabado de ser capturado, que procura desesperadamente libertar-se? O ser vivo procura sempre a liberdade mas será que, em nós, humanos, a existência da razão é a nossa verdadeira prisão? E será que o Amor é a chave da libertação? No final, o «velho» Aydin, encontra a resposta.
O ritmo do filme é lento, mas não aborrecido. É preciso tempo para as ideias assentarem, é preciso tempo para percepcionarmos o que estamos a ver, é preciso tempo para saborear a vida. São filmes destes que ainda fazem acreditar no poder do cinema, na sua capacidade de nos fazer ver em como estamos vivos e o quão maravilhoso isso é. Obrigatório.
 
Fonte: Público (Pedro Brás Marques)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

"Sono de Inverno" estreia em Portugal a 8 de Janeiro

Palma de Ouro do Festival de Cannes este ano, "Sono de Inverno" coloca novamente o nome do realizador turco Nuri Bilge Ceylan em voga, após o saudoso "Era uma Vez na Anatólia" (2011). Uma obra densa, tanto a nível emocional como filosófica.

 
 
Actor reformado, Aydin é o responsável por um hotel na Anatólia Central, onde vive com a jovem esposa Nihal e com a irmã Necla. É precisamente o hotel que acaba por ser o palco da vida dos três, ainda mais quando o Inverno assola a região. Como a neve que cai sobre o local, os conflitos caem um atrás dos outros ao longo do filme, numa “tempestade” que é no entanto brilhantemente gerida por Nuri Bilge Ceylan.
O realizador turco aborda essencialmente um tema: o poder, embora nas suas mais variadas formas (matrimonial, familiar, social, etc.). Tudo fica exposto precisamente quando o Inverno chega. Antes, com a possibilidade de locomoção, os ressentimentos ficam guardados, à espera de uma oportunidade para surgirem sem piedade, o que acontece precisamente na época mais fria do ano. É como se, de repente, alguém acendesse o rastilho e tudo viesse para fora, com cada um a mostrar os seus mais profundos traumas e rancores.
"Sono de Inverno" é uma obra onde a palavra, a conversa impera. São conversações longas, sem pressas, pausadas mas também furiosas, conversações que desenrolam em habitações mal iluminadas, já que os quartos e os aposentos do hotel são no interior de cavernas. É na “escuridão” de cada local que as conversas surgem, com Nuri Bilge Ceylan a apresentar um manual de realização, já que muitas vezes prescinde da imagem e dá vez à palavra, algo nem sempre fácil de alcançar.
Não se sai incólume após cada conversação, é como se estivéssemos num ringue de boxe. Cada diálogo é um “soco”, mas com dois combatentes que não desistem. Há sempre uma réplica por apresentar, o KO dificilmente ocorre. Este “combate” é extenuante e portanto exige “disposição física” por parte do cinéfilo, não estamos perante uma obra de fácil digestão. As palavras calcam e Nuri Bilge Ceylan assim comprova, ainda mais quando o ego acaba por dominar as nossas acções, onde a moralidade tem apenas uma face de uma moeda. O problema é admitir que falta o outro lado da mesma…
 
Ficha técnica:
Título: "Sono de Inverno"
Título original: "Kis uykusu"
Realização: Nuri Bilge Ceylan
Elenco: Ayberk Pekcan, Demet Akbag, Haluk Bilginer, Melisa Sözen e Nejat Isler
Género: Drama
Duração: 196 minutos
País: Turquia
Ano: 2014
 
Fonte: Diário Digital (Pedro Justino Alves)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quando Olga Roriz foi atrás de uma mulher turca e descobriu a própria vida

 
 
Antecipando um ano de 2015 em que comemorará com uma retrospectiva os aniversários da sua companhia e da sua carreira na dança, Olga Roriz volta a apresentar o solo Os Olhos de Gulay Cabbar na Culturgest, em Lisboa.
 
Foi numa viagem de táxi, algures no final dos anos 90, que Olga Roriz foi assaltada pela ideia de uma nova criação que se viria a chamar Os Olhos de Gulay Cabbar. Após folhear uma revista e ficar hipnotizada durante alguns minutos pela “imagem fantástica de uma mulher, dentro de um carro enlameado, com o pescoço estirado para trás”, virou finalmente a página.
 
No verso daquela fotografia pungente, que retratava o drama de uma mulher lutando pela sobrevivência durante as cheias que vergastaram a Turquia em 1998, a coreógrafa e bailarina haveria de descobrir um totalmente desconexo artigo sobre eczemas. O abanão que então sofreu, diante de um alinhamento noticioso que parecia nivelar acriticamente dois assuntos de grandeza diferente, fê-la decidir-se a explorar o universo mediático. “Pensei fazer uma peça sobre isso. Mas toda a exigência de construir um solo através da viagem desta mulher comeu completamente essa ideia.”
 
Os Olhos de Gulay Cabbar, tomando o nome da cidadã turca que conseguiu salvar-se das torrenciais águas lamacentas do rio Dereagzi, acabaria por fundir este mote com a própria biografia de Olga Roriz. Por isso mesmo, a revisitação de 12 a 14 de Dezembro, na Culturgest (Lisboa), do solo estreado em 2000 no Citemor, acabaria por ser a escolha da coreógrafa para antecipar o arranque das comemorações dos 20 anos da sua companhia e dos 40 da sua carreira na dança que, em 2015, vão povoar vários palcos nacionais com uma retrospectiva que irá de Propriedade Privada (1996) a Terra (2014).
 
“É o solo que anda mais perto do meu próprio corpo, sou eu mais nua, num sentido lato. Na altura, por via daquela personagem e daquela situação, fui encontrar uma série de coisas muito minhas, muito autobiográficas, e estou ali instalada nas minhas facetas mais ternas, mais agressivas, mais dramáticas, mais sensuais.” Talvez porque, apesar do peso dramatúrgico que é uma constante nas criações de Olga Roriz, em Os Olhos de Gulay Cabbar formam-se dois discursos paralelos: o movimento, coreografado com absoluto rigor, e o texto, escrito e dito pela própria na versão original.
 
Aquilo que agora muda, passados 14 anos, é sobretudo a perspectiva de Olga Roriz. Impedida, em virtude de problemas físicos do momento, de voltar a habitar em palco a personagem que compôs para Gulay Cabbar, a coreógrafa legou em Marta Lobato Faria o desafio de encarnar esta mulher “roubada” à realidade. O casting, no entanto, não foi tarefa fácil e Roriz admite que só nesta bailarina encontrou o conjunto de características que entende serem essenciais para a peça: “o lado masculino / feminino, a força física e muscular, a delicadeza, o estado zen, o gostar e degustar os movimentos lentos, a parte muito sensual, o lado dramático”, descreve.
 
A lentidão dos movimentos é, de facto, uma das chaves da coreografia, como que evocando paradoxalmente o momento de pânico vivido por Cabbar, enquanto o seu carro hesitava em abandonar-se à correnteza. Mas até para a criadora essa vagareza é surpreendente.
 
“É curioso, não tinha a noção de que era assim”, diz reflectindo sobre o processo em que se observou nas gravações em vídeo e dirigiu a nova vida do solo no corpo de Lobato Faria. “Tive uma sensação estranhíssima, como não reconhecesse o solo, porque lá dentro não é nada lento, é muitíssimo esquizofrénico, apesar de não haver uma viagem especial.”
 
A bailarina está sempre no centro, descida de uma corda umbilical que a amarra e da qual se consegue libertar, como início de um percurso – a tal viagem que Olga Roriz reconhece ter um carácter cíclico e catártico. Em Os Olhos de Gulay Cabbar, há uma aproximação à morte, ao fim, a um desvanecimento que acaba por se transformar progressivamente na sugestão de um recomeço, simultâneo no texto e no corpo da bailarina.
 
“Se a arte da dança é esta coisa muito abstracta e sai por golfadas, por sentimentos um pouco mais à flor da pele”, compara, é o concreto do texto que a transporta novamente para um “nozinho na garganta” e que lhe devolve “a tristeza daquele período conflituoso”. “Tudo isto foi acompanhado pela minha privada, que neste espectáculo teve muita influência. Foi sempre assim – da porcaria faço, por vezes, objectos que me fazem sentir que valeu a pena.”
 
Agora, que estará de fora e não no centro do palco, Olga Roriz diz ter-se libertado também de “uma certa timidez” que antes a cobria de vergonha, quando, por exemplo, se virava para o público dizendo “vocês são-me completamente indiferentes” – sem se saber se era uma fala de rancor ou de desespero. Agora, já será a personagem a dizê-lo, e não ela. Também Olga Roriz, de alguma maneira, se terá libertado.
 
(Fonte: Público)    

sábado, 6 de dezembro de 2014

Corticeira Amorim na Bienal de Design de Istambul

 
 A cortiça é, mais uma vez, o elemento central de um grande evento internacional de design e de arquitectura, sendo desta vez apresentada no âmbito da Bienal de Design de Istambul.
Organizada pela Fundação para a Arte e Cultura de Istambul (iKSV), a segunda edição da Bienal abriu as portas ao público no dia 1 de Novembro e, durante seis semanas, assume-se como uma plataforma privilegiada para repensar o papel do design na sociedade actual e o seu potencial enquanto agente activo de mudança.
"The future is not what it used to be" é o mote da Bienal de Design que, sob a curadoria da britânica Zöe Ryan, tem patentes no espaço principal do evento - a Greek Primary School - 53 trabalhos de criativos de mais de 20 países, de todos os continentes, dispostos nos cinco andares do edifício, uma área de aproximadamente 2300 m2.
Em comum, os projectos têm uma perspetiva muito pragmática da realidade contemporânea, dos desafios que se colocam e uma área de exposição que é amplamente dinamizada pela presença de cortiça, um material que se desdobra nos diferentes espaços em inúmeros objetos, assumindo particular destaque nos candeeiros e no mobiliário da Bienal.
Deniz Ova, Directora da Bienal, destaca a relevância da selecção do material: "Esta é a primeira vez que a cortiça é apresentada na Turquia como material de design e estamos muito satisfeitos com os resultados. A parceria com a portuguesa Corticeira Amorim possibilitou a criação de uma exposição única em torno de uma inovadora solução de design. A atmosfera quente e acolhedora criada pela cortiça é vivenciada por todos os visitantes, transmitindo-lhes imediatamente uma sensação de conforto."
Um testemunho corroborado por Gregers Tang Thomsen, responsável do estúdio de arquitectura Superpool, que enaltece as propriedades sensoriais do material: "Como material que imediatamente transmite a sensação de calor e de personalidade e, em simultâneo, tecnologicamente avançado, a cortiça enquadra-se perfeitamente no tema da Bienal - The future is not what it used to be", acrescentando que "A parceria com a Corticeira Amorim deu-nos a oportunidade de criar um conjunto de soluções de design com cortiça, que de outra forma não seriam exequíveis."
Aquando do convite para apoiar a Bienal de Design de Istambul, a Corticeira Amorim acedeu imediatamente, tornando-se o patrocinador exclusivo de cortiça para o evento, que se materializou na cedência de diversos tipos de material, com destaque para o aglomerado de cortiça expandida, tipicamente associado aos Pavilhões de Portugal, e para os aglomerados de cortiça semelhantes aos utilizados, com enorme sucesso, no Serpentine Gallery Pavilion, em Londres.
Segundo Carlos de Jesus, Director de Comunicação e Marketing da Corticeira Amorim, "A Bienal de Design de Istambul, organizada pela Fundação para a Arte e Cultura de Istambul (iKSV), é a mais importante iniciativa de design e arquitectura a decorrer na Turquia, como comprova o co-patrocínio de conceituadas entidades como a Vitra e a Vestel. É um privilégio ter a presença da cortiça num evento que não só gera grande visibilidade internacional, como também é apoiado por grandes nomes da economia turca, um mercado emergente e relevante para as exportações nacionais."
 
(Fonte: Amorim)

sábado, 8 de novembro de 2014

Mariza em Ancara


Mariza actuou em Ancara pela primeira vez. Foi no dia 6 de Novembro, às 20.00 horas, na sala de concertos MEB Şura.
A sala esgotou e o público cantou e aplaudiu várias vezes de pé a "diva do fado". Mariza dirigiu-se em português aos portugueses presentes, e falou em inglês com a audiência maioritariamente turca, mas com outras nacionalidades também presentes.
O ponto mais alto foi quando cantou "gente da minha terra", ao mesmo tempo que cumprimentava com aperto de mão várias pessoas da audiência.
Seguiu para Istambul onde já actuou diversas vezes.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Livraria do Desassossego" em Ancara



Nos dias 25 e 26 de Outubro decorreu numa pequena livraria no centro de Ancara a iniciativa "Livraria do Desassossego".
O "Livro do Desassossego", traduzido para turco por Saadet Özen, ocupou todas as prateleiras da livraria "Nuhun Gemisi", que foi demasiado pequena para acolher os visitantes turcos e portugueses. A tradutora do livro para turco também esteve presente e falou sobre a obra e o desafio da sua tradução.
Obras de Pessoa em português, frases de Pessoa em turco e português e muita conversa em torno de Pessoa foram acompanhadas com vinho português.
 






sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Orhan Pamuk recebeu prémio em Lisboa


Na sua primeira visita oficial a Portugal, para receber um prémio que reconhece o seu contributo para o património cultural europeu, o Nobel da Literatura deixou um recado: “A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”
 
O escritor turco Orhan Pamuk defendeu esta sexta-feira em Lisboa que “a Europa precisa de ter uma discussão séria sobre os seus valores fundamentais”.
O Nobel da Literatura de 2006, autor de uma obra literária sobre a procura de uma identidade turca, dividida entre o Ocidente e o Oriente, entre modernidade europeia e tradição muçulmana, recebeu esta noite o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural na Fundação Calouste Gulbenkian, com um discurso em que prestou tributo à tradição cultural europeia, mas que terminou com uma nota crítica.
“A herança cultural europeia não se deve limitar à preservação dos seus monumentos, mas também à preservação dos seus valores fundamentais”, disse o escritor, na sua primeira visita oficial a Portugal. “E temos de ter uma discussão séria sobre esses valores fundamentais.”
Pareceu claro que era um recado para a Europa – não por acaso, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, estava presente na primeira fila – embora Pamuk não tenha especificado o que queria dizer com isso, talvez para não correr o risco de soar pouco diplomático. Mas o que Pamuk quis dizer terá talvez a ver com o que respondeu numa entrevista em Dezembro do ano passado, quando um jornalista colombiano lhe perguntou se se sentia europeu. “Não sei. Não penso nesses termos. Em primeiro lugar, sinto-me turco. E um turco tanto se sente europeu como não europeu. Acredito numa Europa que não se baseia no cristianismo, mas no Renascimento, na modernidade, na ‘liberdade, igualdade, fraternidade’. Essa é a minha Europa. Acredito nessas coisas e quero fazer parte delas. Mas se a Europa é a civilização cristã, lamento: nós, turcos, não queremos entrar.”
No debate sobre a hipotética entrada da Turquia na União Europeia, Pamuk – um turco cosmopolita e laico que se autodefine como um “muçulmano, mas apenas no sentido cultural” – emergiu como um intérprete do diálogo entre civilizações. Daniel Cohn-Bendit disse que foi Pamuk quem o ajudou a “perceber a importância de a Turquia aderir à União Europeia”. Até mesmo o ex-Presidente americano George Bush se referiu à obra do escritor como “uma ponte entre culturas”, notando que ela mostra como “pessoas noutros continentes e civilizações” são “exactamente como nós”.

Em defesa das pessoas normais
Atribuído pela primeira vez no ano passado ao escritor italiano Claudio Magris, cuja obra é notória pela sua deambulação cultural (como a de Pamuk), o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, no valor de dez mil euros, é uma iniciativa da organização europeia de defesa do património Europa Nostra em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Clube Português de Imprensa, com o objectivo de distinguir um cidadão europeu que, ao longo da sua carreira, tenha contribuído para a divulgação, defesa e promoção do património cultural e dos ideais europeus.
O presidente do Centro Nacional de Cultura e membro do júri, Guilherme de Oliveira Martins, notou que a atribuição do prémio a Pamuk teve em conta “o cidadão apaixonado pela defesa do património cultural, mais do que o grande romancista”, embora o seu discurso tenha sido dominado por referências e citações constantes do último romance do escritor, O Museu da Inocência (ed. Presença), publicado em 2008.
Pamuk confessou-se “lisonjeado e honrado” pela atribuição do prémio, que lhe foi entregue pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.
Falando em inglês, o escritor lembrou como concebeu um romance e um museu ao mesmo tempo, referindo-se a O Museu da Inocência, ficção sobre um homem que colecciona todos os objectos tocados pela mulher que amou e que perdeu e ao edifício com o mesmo nome que abriu em Istambul, a cidade onde nasceu e onde vive, com objectos que foi juntando para o processo de escrita do livro e que é hoje, também, um museu sobre a vida quotidiana da classe média turca na segunda metade do século XX.
“Os verdadeiros romances centram-se em pessoas normais, no seu dia-a-dia”, disse. Com a entrada na modernidade, a literatura deixou de se interessar pelos reis e poderosos para se ocupar da história de pessoas simples, como se fossem reis – Joyce fê-lo em Ulisses, notou. Pamuk defendeu que os museus deviam fazer o mesmo. “Deixem de prestar atenção à nação e aos reis e dediquem-se aos pequenos detalhes das nossas vidas quotidianas. É por isso que defendo que precisamos de pequenos museus”, disse.
Nesta segunda edição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, foi também atribuído um prémio especial de carreira ao historiador de arte José-Augusto França por ter “fomentado a tomada de consciência e o sentimento de orgulho relativamente à arte portuguesa, relacionando-a com a cultura europeia e mundial”. O júri distinguiu ainda o jornalista holandês Pieter Steinz com uma menção especial pela criação de uma enciclopédia de ícones culturais europeus.
 
(Fonte: Público)

Şeyla Benhabib e Orhan Pamuk discutem a liberdade em Lisboa

O 3º encontro Presente no Futuro , que decorre esta sexta-feira e sábado na Fundação Francisco Manuel dos Santos, trouxe a Lisboa o filósofo francês Gilles Lipovetsky, Michael Ignatieff, professor e escritor canadiano, o neozelandês Jeremy Waldron, professor universitário na Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque, a turca Seyla Benhabib, professora de Ciência Política e Filosofia na Universidade de Yale, e o brasileiro Roberto Mangabeira Unger, teórico social e professor na Universidade de Harvard, que foi ministro de Assuntos Estratégicos do governo de Lula da Silva, entre 2007 e 2009.
Sábado, a partir das 10h30, o debate decorre em simultâneo nas três salas. Às 15h, o Nobel da literatura Orhan Pamuk fala sobre as "linhas com que se escreve a liberdade".
 Entre os oradores portugueses contam-se os filósofos Eduardo Lourenço e José Gil, o teólogo Frei Bento Domingues, a cientista Maria Mota, e as escritoras Dulce Maria Cardoso e Luísa Costa Gomes, entre muitos outros

(Fonte: Expresso)

domingo, 7 de setembro de 2014