domingo, 1 de março de 2015

Faleceu o escritor turco Yaşar Kemal



Morreu um dos gigantes da literatura turca. Yaşar Kemal tinha 92 anos e era de origem curda.
Publicou  o romance “Memed, Meu Falcão” em 1955, obra que o aclamou como escritou e que foi traduzida em mais de 40 línguas, nomeadamente em português. Recebeu 19 prémios literários, e foi o primeiro escritor turco candidato a um prémio Nobel da Literatura, em 1973. 
Foi casado com Thilda Serrero, judia sefardita, que traduziu 17 das suas obras para a língua inglesa.
Faleceu num hospital de Istambul, onde se encontrava internado desde Janeiro, na sequência de complicações provocadas por uma infecção pulmonar e uma arritmia cardíaca.

“Durante toda a minha vida, o meu único sonho foi escrever um pouco mais, um pouco melhor”, disse em 2012, depois de ter terminado a sua última obra.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

"Cavalo Dinheiro" e Pedro Costa viajam até à Turquia

O realizador português, Pedro Costa, vai estar em Istambul a apresentar o seu mais recente trabalho, “Cavalo Dinheiro” no âmbito do Festival de Cinema Independente de Istambul (!f İstanbul).
 
 O documentário "Cavalo Dinheiro", com o qual Pedro Costa ganhou o prémio de melhor realizador no Festival de Cinema de Locarno, vai ser exibido em Istambul  nos dias 15 e 17 de Fevereiro.
 
O realizador vai também estar presente para falar sobre a sua filmografia no dia 18 de Fevereiro, às 18.00 horas, na plataforma cultural SALT de Beyoğlu.
 
A 14.ª edição do Festival !f İstanbul vai decorrer de 12 a 22 de Fevereiro em três cinemas de Istambul. Uma selecção de filmes vai ser também exibida em Ancara e em Izmir, de 26 de Fevereiro a 1 de Março. Em Ancara o filme será exibido no Cinema Armada, no dia 28 de Fevereiro, às 17:30 horas.
 
Para mais informaçoes, consulte www.ifistanbul.com.

"Bairro" de Gonçalo M. Tavares editado na Turquia
























Série "Bairro", de Gonçalo M. Tavares, foi publicada na Turquia com o apoio do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A inquietação de Elif Şafak

A escritora turca Elif Şafak, nomeada para o Orange Prize for Fiction, com "A Bastarda de Istambul", o seu primeiro romance a ser editado em Portugal pela Jacarandá Editora, tem aparência cândida, transmite segurança nas suas palavras, fala pausadamente, parece apaziguada. Mas, à conversa com a autora, a mais lida na Turquia, transparece inquietação. O que um rosto transmite nem sempre corresponde ao âmago.

 
 
Şafak, nascida em Outubro de 1971, tem já um longo currículo. Com 13 livros publicados - "The Architect's Apprentice" é o último, mas ainda só está disponível no Reino Unido -, oradora, professora universitária, activista política e social, falou ao Diário Digital sobre o que a aquieta. A viver entre Londres e Istambul, revolta-se com o sexismo na Turquia, o machismo dominante. E também com a persistente negação do genocídio de milhões de arménios, que o Governo turco descreveu como sendo "simplesmente incidentes desagradáveis". O massacre entre 1914 e 1918 foi, inclusivamente, apagado dos programas escolares.
Para Elif Şafak, tal como o Irão negou o Holocausto, também o Governo turco encobre o genocídio, tentado fazer com que caia no esquecimento. E parece estar a consegui-lo. O povo já não fala do seu passado, da sua história; mas também, mesmo que quisesse, não seria capaz, foi como que obliterado. A autora revolta-se, apela à necessidade de redenção e, sobretudo, à imprescindibilidade de os turcos se solidarizarem com o povo arménio. "É urgente retomar o diálogo entre os turcos e os arménios", enfatiza.
Nascida em França, a sua mãe desistiu dos estudos depois de casar com um turco e irem viver para Estrasburgo. Separar-se-iam um ano depois. A mãe, com a escolaridade incompleta, regressou a uma Turquia sexista em que o papel das mulheres, ainda hoje, é ficarem em casa a tomar conta dos filhos. Felizmente, a avó de Elif, apesar de ter poucos estudos e acreditar em misticismo, fez questão que a filha frequentasse a faculdade e assumiu a tarefa de criar a pequena Elif. A autora transpõe esse direito à emancipação para a sua escrita. Recusa veemente que os seus textos sejam autobiográficos, mas como apartar-nos definitivamente das nossas próprias experiências? E aqui sou eu a questionar-me.
Em "A Bastarda de Istambul", o foco central é uma família, a Kazanci, toda ela constituída por mulheres; quatro gerações ao todo. Sobre os homens recai uma maldição, morrem todos por volta dos 40 anos. E porquê? Por nenhuma razão em particular, salienta, a não ser a de dar maior ênfase às mulheres. A escritora é conhecida por misturar tradições narrativas do Ocidente e do Oriente, por dar voz às minorias, às mulheres, aos imigrantes e às subculturas. E isto não podia estar mais assumido no livro que acaba de publicar em Portugal.
A narrativa começa com Asya Kazanci. Aos 19 anos, solteira, entra num consultório médico em Istambul para fazer um aborto. Por ter escrito sobre a interrupção da gravidez, Elif foi acusada de insultar a lei turca. Foi constituída arguida por um crime cuja sentença pode ir até três anos de prisão. Foi surreal, afirmou. O seu advogado "teve que ir a tribunal defender personagens fictícios". Acabaria por ser ilibada. Assume que abordar o aborto no seu livro é um manifesto. "O governo turco quis promulgar uma lei que abolisse o aborto, mas sem dar qualquer tipo de apoio às mulheres". A Turquia, a do passado e a dos dias de hoje, é um país onde "não se pode falar sobre incesto, violações, abusos sexuais nem violência doméstica". Elif Şafak critica duramente os políticos, observa que estão desfasados da realidade. "As mulheres ricas que queiram fazer um aborto viajam para o estrangeiro; as pobres recorrem a meios ilegais e sujeitam-se a morrer."
E será que se a Turquia tivesse conseguido aderir à União Europeia o panorama seria diferente? A escritora apoiou sempre a adesão como um ideal. "Há alguns anos até teria sido possível", sustenta. Mas o seu país falhou em cumprir os requisitos. E di-lo inabalavelmente. Mas também responsabiliza os políticos europeus. Responsabiliza-os por não terem percebido que seria uma mais-valia ter a Turquia no bloco comunitário. Mas, por ora, "o país terá que fazer um grande esforço, abraçar a democracia em pleno, rever a sua política em relação às minorias, à liberdade de expressão, aos direitos humanos". Desde o pedido da adesão da Turquia à UE, em Abril de 1987, a autora assistiu "a um enorme retrocesso", especialmente no que diz respeito à liberdade de expressão. "Todos os escritores na Turquia sabem que irão sofrer consequências se escreverem o que querem", sublinha.
Em "A Bastarda de Istambul", todos os capítulos falam sobre comida - os títulos são, inclusivamente, nomes de ingredientes (romã, damascos secos, amêndoas, cascas de laranja, pinhões, trigo, pistácios, avelãs torradas…), porquê? Elif Şafak, embora muito magra, gosta de comer (sim, os olhos brilham quando fala sobre comida, e sorri), mas não sabe cozinhar. O que não invalida que não leia livros sobre culinária. Aliás, diz-se muito eclética enquanto leitora; lê desde ensaios literários, livros sobre misticismo, neurociência, sobre todas as disciplinas que estou, e tem muitas referências - Milan Kundera é um deles. Mas, em "A Bastarda de Istambul", discorrer sobre comida assume-se como uma metáfora política. Todos os ingredientes mencionados "coexistem nas refeições" descritas e transformam-se em coisas belas. "Falar sobre comida equipara-se à partilha do pão e da água", é um momento solene. "A minha intenção aqui é igualar a comida como alimento para a alma."
Elif gosta de parar entre livros, de respirar. Actualmente a promover "A Bastarda de Istambul" - foi lançado na Turquia em 2007, publicou, entretanto, em 2014 no Reino Unido "The Architect's Apprentice", com a chancela da Penguin. Relativamente à obra que foi a sua estreia em Portugal, diz ter recebido várias ofertas para que fosse transposto para o cinema. Mas, tal como já foi mencionado, gosta de esperar. Talvez um dia, deixa em suspenso. Entretanto, o livro já foi adaptado para o teatro em Itália, e a peça deverá estrear este Verão.
 
(Fonte: Diário Digital)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Elif Şafak em Portugal

A escritora Elif Şafak, autora de "A bastarda de Istambul", está terça-feira em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, para uma conversa, aberta ao público, com a jornalista Clara Ferreira Alves.
 
 
O encontro, sob o mote "Escrever sobre tabus num mundo multicultural", está agendado para as 19:00, no auditório 3 da Fundação, à Palhavã.
A Fundação refere-se à autora turca como "uma das vozes mais originais da literatura contemporânea". O livro "A Bastarda de Istambul" foi publicado em Portugal no passado dia 09 de Janeiro, pela Jacarandá, chancela da Editorial Presença.
O ponto de partida da narrativa, cuja paisagem é Istambul, é uma jovem solteira de 19 anos, Asya Kazanci, que decidiu ir a um consultório médico, pois pretende interromper voluntariamente a gravidez. "O que acontece naquela tarde mudará para sempre a sua vida", escreve a editora.
A autora conta, então, a história da família Kazanci, 20 anos depois daquela decisão. A família Kazanci é uma casa apenas de mulheres, pois todos os homens morrem pelos 40 anos. Asya tem um negócio de tatuagens, outra mulher, Banu, é vidente, Feride é hipocondríaca. Os segredos da família são revelados quando uma prima arménio-americana, Armanoush, surge em visita.
Segundo a editora portuguesa, Şafak é "a autora que mais vende na Turquia, com livros publicados em mais de 40 línguas".
"Şafak mistura as tradições narrativas do Ocidente e do Oriente, dando voz às mulheres, às minorias e às subculturas", afirma a Jacarandá, chancela que começou a sua publicação em Junho no ano passado, e é dirigida por Simona Cattabiani, que, em finais de 2013, deixou a editora Civilização.
Este romance valeu à escritora uma nomeação para o Prémio Orange, na área de Ficção.
Elif Şafak nasceu em Estrasburgo, França, em 1971, é licenciada em Ciência Política e tem lecionado em várias universidades dos Estados Unidos, Reino Unido e Turquia. Tem também escrito para diversas publicações, nomeadamente The Guardian, The New York Times e The Independent.

(Fonte: RTP)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Sono de Inverno de Nuri Bilge Ceylan...

 
 Alto! Parem as máquinas porque isto é Cinema!... É o que se apraz dizer depois de se assistir a este estupendo “Sono de Inverno”, do realizador turco Nuri Bilge Ceylan, o mesmo do belíssimo “Era uma Vez na Anatólia”. Desde a interpretação à qualidade literária dos diálogos, sem esquecer uma belíssima fotografia, em especial de interiores, tudo parece perfeito no vencedor deste ano da “Palma de Ouro” de Cannes. E os dois actores principais, Haluk Bilginer y Melisa Sözen estão, simplesmente, soberbos.
O cenário é a Capadócia, na Turquia profunda. Numa aldeia troglodita, os habitantes vivem em casas escavadas na rocha, assim se protegendo melhor do frio e do calor, consoante a época do ano. Mas estamos no Inverno, tempo duro, com a neve pintar de branco os “cones de fadas” e a dificultar a circulação dos habitantes. É tempo de hibernar, de ficar por casa junto à lareira, usando o tempo livre para questões mais pessoais… E é aqui que os problemas emergem. Como em qualquer sociedade, há ricos e pobres, há novos e velhos, há diferentes perspectivas do que é a Vida… Aydin, a personagem central, é dono de um hotel e de inúmeras propriedades arrendadas, é rico, gosta de livros e de escrever, já foi actor e está casado com Nihal, uns vinte anos mais nova. A experiência dos anos faz toda a diferença, quer na forma como Aydin aborda as dificuldades com um arrendatário faltoso quer no seu relacionamento com a jovem esposa. São dimensões mentais e processos de maturação interior opostos, mas são também exemplos simbólicos das reacções e das relações humanas perante a realidade material e a realidade imaterial. Aliás, o ponto de vista do filme é sempre o de Aydin, como o próprio realizador expressamente nos transmite num dos planos iniciais, ao fazer a câmara entrar na cabeça da personagem. Aydin tem-se em conta, acha-se esclarecido e até o é, mas não é exactamente essa a imagem que os outros têm dele, incluindo a sua mulher e a sua irmã. Habilmente, o realizador Nuri Ceylan ergue vários pólos à volta de Aydin, cuja interligação constitui o motor do trama de “Sono de Inverno”.
Não é comum verem-se referências, expressas e tácitas, a Dostoievsky, a Shakespeare, Tchekov ou a Moliére num filme contemporâneo, como as que aqui temos. Como também não é comum assistir-se a uma discussão de meia-hora, tensa e profunda mas surpreendentemente serena, entre um casal. Não há berros, não há insultos, não há agressões, mas sim um homem e uma mulher em sucessivas trocas de argumentos, de olhares, de queixas, de dores. Este diálogo, à lareira (o “lar”…) entre Aydin e Nihal dura, repito, uma boa meia-hora, ininterrupta, e não há sombra de tédio neste momento cinematográfico absolutamente brilhante. E que dizer noutro momento magistral, aquele em que um criador de cavalos tenta tirar da água um equídeo selvagem, acabado de ser capturado, que procura desesperadamente libertar-se? O ser vivo procura sempre a liberdade mas será que, em nós, humanos, a existência da razão é a nossa verdadeira prisão? E será que o Amor é a chave da libertação? No final, o «velho» Aydin, encontra a resposta.
O ritmo do filme é lento, mas não aborrecido. É preciso tempo para as ideias assentarem, é preciso tempo para percepcionarmos o que estamos a ver, é preciso tempo para saborear a vida. São filmes destes que ainda fazem acreditar no poder do cinema, na sua capacidade de nos fazer ver em como estamos vivos e o quão maravilhoso isso é. Obrigatório.
 
Fonte: Público (Pedro Brás Marques)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Elif Şafak já tem livro editado em Portugal

"A Bastarda de Istambul" é o primeiro livro de Elif Şafak editado em Portugal. A escritora turca é aclamada pela crítica como uma das vozes mais originais da literatura contemporânea, tanto em língua turca como em língua inglesa. A obra foi nomeada para o Orange Prize for Fiction. "Um verdadeiro prazer", escreveu o The Times.

 
 
"Numa tarde de chuva em Istambul, uma mulher entra num consultório médico. "Preciso de fazer um aborto", declara. Tem dezanove anos de idade e é solteira. O que acontece naquela tarde mudará para sempre a sua vida."
 
(Fonte: Diário Digital)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

"Sono de Inverno" estreia em Portugal a 8 de Janeiro

Palma de Ouro do Festival de Cannes este ano, "Sono de Inverno" coloca novamente o nome do realizador turco Nuri Bilge Ceylan em voga, após o saudoso "Era uma Vez na Anatólia" (2011). Uma obra densa, tanto a nível emocional como filosófica.

 
 
Actor reformado, Aydin é o responsável por um hotel na Anatólia Central, onde vive com a jovem esposa Nihal e com a irmã Necla. É precisamente o hotel que acaba por ser o palco da vida dos três, ainda mais quando o Inverno assola a região. Como a neve que cai sobre o local, os conflitos caem um atrás dos outros ao longo do filme, numa “tempestade” que é no entanto brilhantemente gerida por Nuri Bilge Ceylan.
O realizador turco aborda essencialmente um tema: o poder, embora nas suas mais variadas formas (matrimonial, familiar, social, etc.). Tudo fica exposto precisamente quando o Inverno chega. Antes, com a possibilidade de locomoção, os ressentimentos ficam guardados, à espera de uma oportunidade para surgirem sem piedade, o que acontece precisamente na época mais fria do ano. É como se, de repente, alguém acendesse o rastilho e tudo viesse para fora, com cada um a mostrar os seus mais profundos traumas e rancores.
"Sono de Inverno" é uma obra onde a palavra, a conversa impera. São conversações longas, sem pressas, pausadas mas também furiosas, conversações que desenrolam em habitações mal iluminadas, já que os quartos e os aposentos do hotel são no interior de cavernas. É na “escuridão” de cada local que as conversas surgem, com Nuri Bilge Ceylan a apresentar um manual de realização, já que muitas vezes prescinde da imagem e dá vez à palavra, algo nem sempre fácil de alcançar.
Não se sai incólume após cada conversação, é como se estivéssemos num ringue de boxe. Cada diálogo é um “soco”, mas com dois combatentes que não desistem. Há sempre uma réplica por apresentar, o KO dificilmente ocorre. Este “combate” é extenuante e portanto exige “disposição física” por parte do cinéfilo, não estamos perante uma obra de fácil digestão. As palavras calcam e Nuri Bilge Ceylan assim comprova, ainda mais quando o ego acaba por dominar as nossas acções, onde a moralidade tem apenas uma face de uma moeda. O problema é admitir que falta o outro lado da mesma…
 
Ficha técnica:
Título: "Sono de Inverno"
Título original: "Kis uykusu"
Realização: Nuri Bilge Ceylan
Elenco: Ayberk Pekcan, Demet Akbag, Haluk Bilginer, Melisa Sözen e Nejat Isler
Género: Drama
Duração: 196 minutos
País: Turquia
Ano: 2014
 
Fonte: Diário Digital (Pedro Justino Alves)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quando Olga Roriz foi atrás de uma mulher turca e descobriu a própria vida

 
 
Antecipando um ano de 2015 em que comemorará com uma retrospectiva os aniversários da sua companhia e da sua carreira na dança, Olga Roriz volta a apresentar o solo Os Olhos de Gulay Cabbar na Culturgest, em Lisboa.
 
Foi numa viagem de táxi, algures no final dos anos 90, que Olga Roriz foi assaltada pela ideia de uma nova criação que se viria a chamar Os Olhos de Gulay Cabbar. Após folhear uma revista e ficar hipnotizada durante alguns minutos pela “imagem fantástica de uma mulher, dentro de um carro enlameado, com o pescoço estirado para trás”, virou finalmente a página.
 
No verso daquela fotografia pungente, que retratava o drama de uma mulher lutando pela sobrevivência durante as cheias que vergastaram a Turquia em 1998, a coreógrafa e bailarina haveria de descobrir um totalmente desconexo artigo sobre eczemas. O abanão que então sofreu, diante de um alinhamento noticioso que parecia nivelar acriticamente dois assuntos de grandeza diferente, fê-la decidir-se a explorar o universo mediático. “Pensei fazer uma peça sobre isso. Mas toda a exigência de construir um solo através da viagem desta mulher comeu completamente essa ideia.”
 
Os Olhos de Gulay Cabbar, tomando o nome da cidadã turca que conseguiu salvar-se das torrenciais águas lamacentas do rio Dereagzi, acabaria por fundir este mote com a própria biografia de Olga Roriz. Por isso mesmo, a revisitação de 12 a 14 de Dezembro, na Culturgest (Lisboa), do solo estreado em 2000 no Citemor, acabaria por ser a escolha da coreógrafa para antecipar o arranque das comemorações dos 20 anos da sua companhia e dos 40 da sua carreira na dança que, em 2015, vão povoar vários palcos nacionais com uma retrospectiva que irá de Propriedade Privada (1996) a Terra (2014).
 
“É o solo que anda mais perto do meu próprio corpo, sou eu mais nua, num sentido lato. Na altura, por via daquela personagem e daquela situação, fui encontrar uma série de coisas muito minhas, muito autobiográficas, e estou ali instalada nas minhas facetas mais ternas, mais agressivas, mais dramáticas, mais sensuais.” Talvez porque, apesar do peso dramatúrgico que é uma constante nas criações de Olga Roriz, em Os Olhos de Gulay Cabbar formam-se dois discursos paralelos: o movimento, coreografado com absoluto rigor, e o texto, escrito e dito pela própria na versão original.
 
Aquilo que agora muda, passados 14 anos, é sobretudo a perspectiva de Olga Roriz. Impedida, em virtude de problemas físicos do momento, de voltar a habitar em palco a personagem que compôs para Gulay Cabbar, a coreógrafa legou em Marta Lobato Faria o desafio de encarnar esta mulher “roubada” à realidade. O casting, no entanto, não foi tarefa fácil e Roriz admite que só nesta bailarina encontrou o conjunto de características que entende serem essenciais para a peça: “o lado masculino / feminino, a força física e muscular, a delicadeza, o estado zen, o gostar e degustar os movimentos lentos, a parte muito sensual, o lado dramático”, descreve.
 
A lentidão dos movimentos é, de facto, uma das chaves da coreografia, como que evocando paradoxalmente o momento de pânico vivido por Cabbar, enquanto o seu carro hesitava em abandonar-se à correnteza. Mas até para a criadora essa vagareza é surpreendente.
 
“É curioso, não tinha a noção de que era assim”, diz reflectindo sobre o processo em que se observou nas gravações em vídeo e dirigiu a nova vida do solo no corpo de Lobato Faria. “Tive uma sensação estranhíssima, como não reconhecesse o solo, porque lá dentro não é nada lento, é muitíssimo esquizofrénico, apesar de não haver uma viagem especial.”
 
A bailarina está sempre no centro, descida de uma corda umbilical que a amarra e da qual se consegue libertar, como início de um percurso – a tal viagem que Olga Roriz reconhece ter um carácter cíclico e catártico. Em Os Olhos de Gulay Cabbar, há uma aproximação à morte, ao fim, a um desvanecimento que acaba por se transformar progressivamente na sugestão de um recomeço, simultâneo no texto e no corpo da bailarina.
 
“Se a arte da dança é esta coisa muito abstracta e sai por golfadas, por sentimentos um pouco mais à flor da pele”, compara, é o concreto do texto que a transporta novamente para um “nozinho na garganta” e que lhe devolve “a tristeza daquele período conflituoso”. “Tudo isto foi acompanhado pela minha privada, que neste espectáculo teve muita influência. Foi sempre assim – da porcaria faço, por vezes, objectos que me fazem sentir que valeu a pena.”
 
Agora, que estará de fora e não no centro do palco, Olga Roriz diz ter-se libertado também de “uma certa timidez” que antes a cobria de vergonha, quando, por exemplo, se virava para o público dizendo “vocês são-me completamente indiferentes” – sem se saber se era uma fala de rancor ou de desespero. Agora, já será a personagem a dizê-lo, e não ela. Também Olga Roriz, de alguma maneira, se terá libertado.
 
(Fonte: Público)