sábado, 26 de junho de 2021

"Unidos: 10 Escolhas para um Agora Melhor", de Ece Temelkuran, publicado em Portugal


Sinopse:

Este livro não é sobre a maneira como estragámos tudo, mas sobre o tipo de mundo em que queremos viver agora.

Em 2020, movimentos de protesto em todo o mundo revelaram as desigualdades incrustadas no tecido da sociedade. Os incêndios que devastaram a Austrália e a Califórnia tornaram claro que estamos no meio de uma catástrofe climática. A pandemia mostrou a todos a fragilidade da nossa economia e as teorias da conspiração que rodearam as eleições nos EUA demonstraram o mesmo em relação à democracia. Os governantes não têm respostas. Na realidade, os governantes são, muito frequentemente, o problema. A comentadora política Ece Temelkuran apresenta uma narrativa nova e convincente para o momento que atravessamos. Não para um futuro idealizado mas para o agora. E pede-nos que façamos uma escolha. Que escolhamos a determinação em vez da esperança; que enfrentemos o medo em vez de nos consolarmos com a ignorância; que poupemos a nossa energia para vigiarmos os que detêm o poder e os sistemas destrutivos por eles comandados, em vez de desperdiçarmos tempo a expelir fúria e insultos nas redes sociais.

Fonte: Bertrand

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Ahmet Hamdi Tanpınar: "O Instituto para o Acerto dos Relógios"


"O Instituto para o Acerto dos Relógios” (ed. Maldoror) é o cómico relato das dores de ocidentalização de um homem e do seu país, a Turquia, contada pelo olhar sagaz e ácido de um dos seus escritores maiores.

Ahmet Ahmdi Tanpinar tinha 22 anos quando, em Outubro de 1923, foi oficialmente fundada a República da Turquia. Foi com os seus próprios olhos que este antigo estudante de veterinária, posteriormente de literatura e professor universitário, viu a ocidentalização da Turquia. “O Instituto para o Acerto dos Relógios”, escrito em 1954 como uma série de folhetins para um jornal, é um sacrástico e bem humorado relato da ocidentalização da sociedade turca vista pelo olhar de Hayri Irdal, “o homem mais simples e tolo do mundo”, aprendiz de relojoeiro transformado em burocrata de uma nova instituição cujo propósito era abrir caminho para uma nova filosofia - “Vamos declarar que o ser humano é, antes do mais e acima de tudo, uma criatura que trabalha, e que trabalho é sinónimo de tempo.”

“Algumas pessoas vivem a vida tirando bom proveito do seu tempo, mas para mim o tempo era como uma perna estendida à minha frente e eu tropeçava nele.” Assim descreve o desafortunado Hayri a sua própria relação com o tempo, como uma repetição de azares e inconsequências, uma luta precária pela sobrevivência na babilónica Istambul. Com filhos e mulher para alimentar, Hayri vive de biscates, esquemas e trabalhos de escritório que mal chegam para sobreviver. Arrasta-se desencantado entre cafés e conversas, tenta regressar ao velho ofício, mas “Já não existia na minha cabeça qualquer ligação entre as palavras «vida» e «trabalho». Para mim a vida era um conto de fadas que inventamos de mãos bem afundadas nos bolsos.” 

Hayri relata as suas peripécias antes de se transformar num homem novo. Saltitava de capricho em capricho, acompanhado pelos seus conhecidos, que incluíam um farmacêutico alquimista, que tentava avidamente produzir ouro no seu próprio laboratório, e um profeta louco que encetou uma demanda por um tesouro escondido. Hayri ver-se-á envolvido num bizarro processo judicial, uma farsa kafkiana, que o entrega nas mãos de um prosélito de uma moderna religião - a psicanálise. Este é o ponto de viragem para o desesperado Hayri que, pela mão do psicanalista, trava conhecimento com aquele que irá ser o seu salvador. Hayri sofria muito, principalmente depois da morte da sua primeira mulher. Conhecia “todos os túmulos, campas e mausoléus de qualquer dos santos ou milagreiros que se podiam encontrar em praticamente qualquer bairro de Istambul”, mas pelas preces que lhes concedeu, nenhuma benção recebeu em troca. Nenhuma dessas entidades místicas “proporcionara qualquer bálsamo para as minhas feridas, nenhum mexera um dedo para acalmar a minha dor e o meu sofrimento na época em que eu lutava para alimentar a minha família.” Ao homem santo nada que lhe ofereçam na terra faz falta, “ofereciam tudo o que possuíam para viverem em condições mais abjectas do que as minhas, com o objectivo de disciplinarem a mente e fortalecerem a alma.” A estes interessa-lhes somente o que vem depois, almejam a eternidade a que a morte os há-de entregar, vivem fora do tempo, imunes à aceleração da civilização. “Enquanto eu lamentava não ter uma camisa limpa para vestir de manhã, Dede, o Descamisado, tratava de rasgar violentamente as suas no meio da rua, camisas que lhe tinham sido oferecidas.” Na fé e na abnegação, Hayri não encontrou pão para pôr na mesa, nem uma camisa limpa. Passou o tempo da miraculosa intervenção divina, é chegada a hora de o homem tomar as rédeas da providência. 

Halit Ayarci é para Hayri, tal como Ataturk o foi para a Turquia, o homem providencial. Sob a alçada de Halit, que pertence à casta daqueles que “agarram , que se apoderam, que devoram e despedaçam aquilo que lhes agrada, e que depois partem em busca de algo novo”, Hayri há-de passar de madraço imprestável para “assistente de direcção de uma das instituições mais inovadoras e beneméritas do mundo” - o Instituto para o Acerto dos Relógios. Halit Ayarci é acima de tudo um homem prático. Para tudo possui uma solução, com um sopro desanuvia uma tempestade. Para o longo rol de queixumes e tormentas de Hayri, Halit oferece o desembaraço vácuo do pantomineiro experimentado. “Como vê, não há problema que não tenha solução. Alguns pequenos ajustes à sua vida, um pouco de empreendedorismo, um pouco de esforço, uma pequena mudança no modo de ver as coisas - e voilà! Tudo se altera.” Perante os protestos de Hayri, Halit é taxativo “O que é que ganha ao aceitarmos a realidade tal como ela é? (...) O que posso fazer com o material que tenho à minha frente, com este mesmo objecto e tudo o que ele tem para me oferecer? É esta a pergunta a colocar." A resposta de Halit a esta mesma pergunta foi agarrar em Hayri e nos velhos adágios sobre a natureza do tempo que herdara do seu antigo mestre relojoeiro e contratá-lo como fundador do Instituto para o Acerto dos Relógios.

Hayri está feliz com o seu novo emprego, contente por “já não [andar] de café em café à procura de uma cara conhecida”, mas não compreendia o trabalho que tinha que realizar,  “um posto nascido de um punhado de palavras”. O antiquado Hayri não compreende o aperfeiçoamento da burocracia, as discussões para cargos directivos, a contratação de familiares de modo a “abafar à nascença todo o tipo de queixas”, a contratação de trabalhadores excedentários para, quando aparecerem os relatos de gastos excessivos do Instituto, tenham “dois ou três funcionários que possamos sacrificar tranquilamente, se quisermos mostrar ao público que as nossas intenções são as melhores.” O que Hayri não entende e que Halit insiste em tentar convencê-lo de, é que é chegada a era da burocracia, que esta atingiu o seu zénite, e que estão no “processo de fundar uma instituição absoluta - um mecanismo que define a sua própria função. O que poderia estar mais próximo da perfeição do que isso?” 

Hayri nunca será capaz de vestir a pele de burocrata perfeito. É demasiado conservador e antiquado para os padrões destes novos visionários. Nele convivem lado a lado o novo e o velho, o progresso e a crendice. Tanpinar acerta em cheio no modo como desenha a incredulidade de Hayri perante o absurdo que o rodeia. É pelo olhar espantado dele que vemos o presidente da câmara a inspeccionar os escritórios ainda vazios de gente do Instituto e a “converter meia dúzia de passos até à sala seguinte numa viagem de meia hora”, enquanto examina “candeeiros de escritório (ainda sem lâmpadas), que prometiam longas e ininterruptas noites de trabalho”. Sente-se vivamente a indignação de Hayri diante dos delírios hollywoodescos da esposa, que vivia a vida como se fosse uma das atrizes que via nos filmes, que se convenceu que Hayri era parecido com Napoleão porque ambos adoravam azeitonas secas, e que disse numa entrevista que o marido era “um razoável cavalheiro, um excelente nadador e de vez em quando jogava ténis”. São palpáveis as suas hesitações entre acreditar ou não, entre entregar-se aos factos ou repudiá-los em absoluto. Hayri mantém-se fiel a Halit, que lhe exige “crença genuína na importância do nosso trabalho”, que espera dele que acredite piamente na existência de Ahmet, o Cronologista, velho sábio sobre o qual Hayri escreveu uma biografia, mas que nunca existiu. “Duvidar da sua existência numa fase tão adiantada teria sido demasiado perturbador.”

O Instituto, que começava a internacionalizar-se, haveria de se esboroar pela base. Hayri, que se reinventara como uma espécie moderna de homem da renascença, artesão em vez de artista, foi responsável pela arquitectura do projecto megalómano e totalmente absurdo da nova sede do Instituto. A maquete do projeto, feita em casa com a ajuda do filho, era feita com caixas de fósforos. Quando se equacionou que Hayri utilizasse as suas recém adquiridas capacidades de engenheiro e arquitecto para construir um bairro para os trabalhadores do Instituto, a insurreição começou. “Quando o que estava em jogo era dinheiro público [as pessoas] mostravam-se generosas, entusiásticas, orgulhosas do meu trabalho e encantadas com as suas inovações; mas quando a coisa afectava os seus interesses pessoais, mudavam de partido. Aliás, até deixaram de dar ouvidos a Halit Ayarci”. O Instituto não desapareceu porque as suas intenções se tornaram obsoletas, aliás, nem essas intenções seriam suficientes para que o Instituto tivesse sido formado em primeiro lugar, “Qual é a necessidade de um instituto como este quando é tão fácil saber que horas são?”, mas antes porque enquanto instituição burocrática se tornou demasiado ufana para repetir o contorcionismo filosófico que tornou possível a sua criação. 

(Fonte: Jornal I)

domingo, 18 de abril de 2021

Séries turcas no catálogo da Netflix: The Gift

 


Uma artista de Istambul embarca numa jornada pessoal quando descobre os segredos universais de um sítio arqueológico na Anatólia que está ligado ao seu passado. 

 Elenco: Beren Saat, Mehmet Günsür, Metin Akdülger
   

domingo, 10 de maio de 2020

As "Noites de Peste" de Orhan Pamuk




Desde sempre que as pessoas respondem às epidemias espalhando boatos e informações falsas e retratando a doença como algo estrangeiro trazido com intenções maliciosas. O escritor Orhan Pamuk, Nobel da Literatura em 2006, vislumbra o coronavírus olhando para o espelho retrovisor:

"Tenho estado a escrever, nos últimos quatro anos, um romance histórico situado em 1901, durante o que ficou conhecido como a terceira pandemia, um surto de peste bubónica que matou milhões de pessoas na Ásia, mas não muitas na Europa. Nos últimos dois meses, amigos e família, editores e jornalistas que sabem qual é o assunto desse romance, “Noites de Peste”, têm-me feito inúmeras perguntas sobre pandemias. Estão bastante curiosos sobre as semelhanças entre a atual pandemia de coronavírus e os surtos históricos de peste e cólera. Há imensas semelhanças. Em toda a história literária e humana, o que torna as pandemias semelhantes não é a mera semelhança de germes e vírus, mas o facto de as nossas primeiras reações serem sempre as mesmas."

(Fonte: Expresso)

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Özge Topcu: Uma artista turca entre Istambul e Lisboa


A artista turca Özge Topçu lançou a obra "Terranean" dias antes do início da pandemia de covid-19. Partindo do barro e da terra, questiona a organização das cidades modernas. Desenvolve o seu trabalho artístico entre Istambul e Lisboa.

Em entrevista ao programa "Europa Minha", em Lisboa, reflete sobre o valor das palavras e como estas moldaram a sua experiência na União Europeia.

https://www.rtp.pt/noticias/rtpeuropa-portugal/questionar-tudo-ate-a-palavra-imigrante-a-experiencia-de-uma-artista-turca-na-ue_v1223607

quinta-feira, 16 de maio de 2019

"Como Perder um País", de Ece Temelkuran, traduzido para português


"Como Perder um País" é um livro necessário e urgente. É uma denúncia da ascensão do populismo de direita. Um apelo urgente à ação. Um verdadeiro guia de campo para identificar os padrões e mecanismos astuciosos da vaga de populismo que varre o mundo atual. 

Propondo respostas globais e alternativas às questões políticas prementes – e com frequência paralisadoras – do nosso tempo, Temelkuran examina a ideia ardilosa do "povo real", a infantilização da linguagem e dos debates, a maneira como o riso pode ser enganador, e os perigos de subestimarmos o nosso adversário. Entretecendo memória, história e argumentos claros, cria uma urgente e eloquente defesa da democracia.

Fonte: Temas e Debates


sábado, 23 de fevereiro de 2019

Apresentação do livro "Uma Relação entre Portugal e a Turquia em Torno de Piri Reis"

Em 21 de fevereiro teve lugar, no Auditório da Academia de Marinha, o lançamento do livro “Uma Relação entre Portugal e a Turquia em Torno de Piri Reis”, apresentado pelo Académico José Manuel Malhão Pereira.

Tratou-se de uma sessão cultural conjunta com a Sociedade de Geografia de Lisboa e com a Embaixada da Turquia em Portugal, tendo estado presente a Embaixadora da Turquia em Portugal, Lale Ülker, com a sua delegação constituída pelo Almirante Metin Ataç, pela Conselheira Zeynep Kaleli e pelo Adido de Defesa, Comandante Nejat Kiran.

Para o Presidente da Academia de Marinha, Almirante Francisco Vidal Abreu, o livro apresentado intitulado – "Uma Relação entre Portugal e a Turquia em Torno de Piri Reis", "tem sido um continuado e excelente elemento de ligação entre os nossos dois países no domínio da investigação de matérias ligadas à história da náutica e, naturalmente, centradas em Piri Reis”.

Este livro é uma justa homenagem a Piri Reis, um dos grandes almirantes otomanos, que passado cerca de 100 anos desde o início da Expansão Portuguesa, publicou em 1513 uma carta do mundo, uma importante produção cartográfica do século XVI de que resta apenas o fragmento do Atlântico.


quinta-feira, 12 de abril de 2018

D. Quixote vai editar romance "Istambul, Istambul" de Burhan Sönmez


O romance "Istambul, Istambul", do autor turco Burhan Sönmez, primeiro vencedor do prémio conjunto da Feira do Livro de Londres, British Council e Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, vai ser editado em Portugal pelas Publicações D. Quixote.

O anúncio foi feito pela editora do Grupo LeYa, que planeia publicar a tradução portuguesa no início de 2019, com a presença do autor em Portugal.

"Istambul, Istambul" é o primeiro título de Burhan Sönmez publicado em Portugal, e constitui uma crítica à Turquia contemporânea.

O escritor nasceu em 1965, nos arredores de Ancara, e estreou-se com "North" (2009), título ao qual se seguiu "Sins and Innocents" (2013), antes de "Istambul, Istambul" (2015).

O prémio de literatura do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), com o British Council e a Feira do Livro de Londres (EBRD Literature Prize), foi criado em 2017, com o valor de 20 mil euros, e foi atribuído pela primeira vez este ano.

O prémio BERD de Literatura, que toma a sigla original do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (EBRD), tem por objetivo reconhecer e promover "a extraordinária riqueza, profundidade e variedade da cultura e história de alguns dos países em que a instituição investe", lê-se na sua página na Internet.

O galardão visa ainda realçar "a relevância dos escritores que retratem as aspirações e desafios que as populações enfrentam, nessas regiões".

Esta distinção reconhece igualmente "o talento e o papel vital desempenhado pelo tradutor [da obra vencedora], em tornar as histórias desses países acessíveis ao público" de língua inglesa, seguindo o modelo do Man Booker International Prize.

O romance de Burhan Sönmez venceu sobre os outros dois finalistas da primeira edição do prémio, "All the World's a Stage", do russo Boris Akunin, e "Belladonna", da croata Dasa Drndic.

O romance "conta-nos a história de quatro prisioneiros que se encontram detidos nas celas subterrâneas de um centro de tortura: um taberneiro, um médico, um estudante e um ativista político".

"Na tradição de obras como 'Decameron' [conjunto de cem novelas escritas por Giovanni Boccaccio, entre 1348 e 1353], os quatro detidos, quando não estão a ser torturados, contam histórias sobre a cidade de Istambul e os motivos que os levaram à prisão, a forma por eles encontrada de melhor passarem o tempo. A narrativa subterrânea transforma-se então gradualmente naquilo que se passa no exterior".

O BERD foi fundado em 1991, após a queda do Muro de Berlim, com o objetivo ajudar a construir economias de mercado em recém-criadas democracias de 27 países da Europa Central à Ásia Central. A aceitação dos empréstimos do BERD implica o compromisso com os princípios democráticos.

(Fonte: DN)