sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Quando Olga Roriz foi atrás de uma mulher turca e descobriu a própria vida

 
 
Antecipando um ano de 2015 em que comemorará com uma retrospectiva os aniversários da sua companhia e da sua carreira na dança, Olga Roriz volta a apresentar o solo Os Olhos de Gulay Cabbar na Culturgest, em Lisboa.
 
Foi numa viagem de táxi, algures no final dos anos 90, que Olga Roriz foi assaltada pela ideia de uma nova criação que se viria a chamar Os Olhos de Gulay Cabbar. Após folhear uma revista e ficar hipnotizada durante alguns minutos pela “imagem fantástica de uma mulher, dentro de um carro enlameado, com o pescoço estirado para trás”, virou finalmente a página.
 
No verso daquela fotografia pungente, que retratava o drama de uma mulher lutando pela sobrevivência durante as cheias que vergastaram a Turquia em 1998, a coreógrafa e bailarina haveria de descobrir um totalmente desconexo artigo sobre eczemas. O abanão que então sofreu, diante de um alinhamento noticioso que parecia nivelar acriticamente dois assuntos de grandeza diferente, fê-la decidir-se a explorar o universo mediático. “Pensei fazer uma peça sobre isso. Mas toda a exigência de construir um solo através da viagem desta mulher comeu completamente essa ideia.”
 
Os Olhos de Gulay Cabbar, tomando o nome da cidadã turca que conseguiu salvar-se das torrenciais águas lamacentas do rio Dereagzi, acabaria por fundir este mote com a própria biografia de Olga Roriz. Por isso mesmo, a revisitação de 12 a 14 de Dezembro, na Culturgest (Lisboa), do solo estreado em 2000 no Citemor, acabaria por ser a escolha da coreógrafa para antecipar o arranque das comemorações dos 20 anos da sua companhia e dos 40 da sua carreira na dança que, em 2015, vão povoar vários palcos nacionais com uma retrospectiva que irá de Propriedade Privada (1996) a Terra (2014).
 
“É o solo que anda mais perto do meu próprio corpo, sou eu mais nua, num sentido lato. Na altura, por via daquela personagem e daquela situação, fui encontrar uma série de coisas muito minhas, muito autobiográficas, e estou ali instalada nas minhas facetas mais ternas, mais agressivas, mais dramáticas, mais sensuais.” Talvez porque, apesar do peso dramatúrgico que é uma constante nas criações de Olga Roriz, em Os Olhos de Gulay Cabbar formam-se dois discursos paralelos: o movimento, coreografado com absoluto rigor, e o texto, escrito e dito pela própria na versão original.
 
Aquilo que agora muda, passados 14 anos, é sobretudo a perspectiva de Olga Roriz. Impedida, em virtude de problemas físicos do momento, de voltar a habitar em palco a personagem que compôs para Gulay Cabbar, a coreógrafa legou em Marta Lobato Faria o desafio de encarnar esta mulher “roubada” à realidade. O casting, no entanto, não foi tarefa fácil e Roriz admite que só nesta bailarina encontrou o conjunto de características que entende serem essenciais para a peça: “o lado masculino / feminino, a força física e muscular, a delicadeza, o estado zen, o gostar e degustar os movimentos lentos, a parte muito sensual, o lado dramático”, descreve.
 
A lentidão dos movimentos é, de facto, uma das chaves da coreografia, como que evocando paradoxalmente o momento de pânico vivido por Cabbar, enquanto o seu carro hesitava em abandonar-se à correnteza. Mas até para a criadora essa vagareza é surpreendente.
 
“É curioso, não tinha a noção de que era assim”, diz reflectindo sobre o processo em que se observou nas gravações em vídeo e dirigiu a nova vida do solo no corpo de Lobato Faria. “Tive uma sensação estranhíssima, como não reconhecesse o solo, porque lá dentro não é nada lento, é muitíssimo esquizofrénico, apesar de não haver uma viagem especial.”
 
A bailarina está sempre no centro, descida de uma corda umbilical que a amarra e da qual se consegue libertar, como início de um percurso – a tal viagem que Olga Roriz reconhece ter um carácter cíclico e catártico. Em Os Olhos de Gulay Cabbar, há uma aproximação à morte, ao fim, a um desvanecimento que acaba por se transformar progressivamente na sugestão de um recomeço, simultâneo no texto e no corpo da bailarina.
 
“Se a arte da dança é esta coisa muito abstracta e sai por golfadas, por sentimentos um pouco mais à flor da pele”, compara, é o concreto do texto que a transporta novamente para um “nozinho na garganta” e que lhe devolve “a tristeza daquele período conflituoso”. “Tudo isto foi acompanhado pela minha privada, que neste espectáculo teve muita influência. Foi sempre assim – da porcaria faço, por vezes, objectos que me fazem sentir que valeu a pena.”
 
Agora, que estará de fora e não no centro do palco, Olga Roriz diz ter-se libertado também de “uma certa timidez” que antes a cobria de vergonha, quando, por exemplo, se virava para o público dizendo “vocês são-me completamente indiferentes” – sem se saber se era uma fala de rancor ou de desespero. Agora, já será a personagem a dizê-lo, e não ela. Também Olga Roriz, de alguma maneira, se terá libertado.
 
(Fonte: Público)    

sábado, 6 de dezembro de 2014

Corticeira Amorim na Bienal de Design de Istambul

 
 A cortiça é, mais uma vez, o elemento central de um grande evento internacional de design e de arquitectura, sendo desta vez apresentada no âmbito da Bienal de Design de Istambul.
Organizada pela Fundação para a Arte e Cultura de Istambul (iKSV), a segunda edição da Bienal abriu as portas ao público no dia 1 de Novembro e, durante seis semanas, assume-se como uma plataforma privilegiada para repensar o papel do design na sociedade actual e o seu potencial enquanto agente activo de mudança.
"The future is not what it used to be" é o mote da Bienal de Design que, sob a curadoria da britânica Zöe Ryan, tem patentes no espaço principal do evento - a Greek Primary School - 53 trabalhos de criativos de mais de 20 países, de todos os continentes, dispostos nos cinco andares do edifício, uma área de aproximadamente 2300 m2.
Em comum, os projectos têm uma perspetiva muito pragmática da realidade contemporânea, dos desafios que se colocam e uma área de exposição que é amplamente dinamizada pela presença de cortiça, um material que se desdobra nos diferentes espaços em inúmeros objetos, assumindo particular destaque nos candeeiros e no mobiliário da Bienal.
Deniz Ova, Directora da Bienal, destaca a relevância da selecção do material: "Esta é a primeira vez que a cortiça é apresentada na Turquia como material de design e estamos muito satisfeitos com os resultados. A parceria com a portuguesa Corticeira Amorim possibilitou a criação de uma exposição única em torno de uma inovadora solução de design. A atmosfera quente e acolhedora criada pela cortiça é vivenciada por todos os visitantes, transmitindo-lhes imediatamente uma sensação de conforto."
Um testemunho corroborado por Gregers Tang Thomsen, responsável do estúdio de arquitectura Superpool, que enaltece as propriedades sensoriais do material: "Como material que imediatamente transmite a sensação de calor e de personalidade e, em simultâneo, tecnologicamente avançado, a cortiça enquadra-se perfeitamente no tema da Bienal - The future is not what it used to be", acrescentando que "A parceria com a Corticeira Amorim deu-nos a oportunidade de criar um conjunto de soluções de design com cortiça, que de outra forma não seriam exequíveis."
Aquando do convite para apoiar a Bienal de Design de Istambul, a Corticeira Amorim acedeu imediatamente, tornando-se o patrocinador exclusivo de cortiça para o evento, que se materializou na cedência de diversos tipos de material, com destaque para o aglomerado de cortiça expandida, tipicamente associado aos Pavilhões de Portugal, e para os aglomerados de cortiça semelhantes aos utilizados, com enorme sucesso, no Serpentine Gallery Pavilion, em Londres.
Segundo Carlos de Jesus, Director de Comunicação e Marketing da Corticeira Amorim, "A Bienal de Design de Istambul, organizada pela Fundação para a Arte e Cultura de Istambul (iKSV), é a mais importante iniciativa de design e arquitectura a decorrer na Turquia, como comprova o co-patrocínio de conceituadas entidades como a Vitra e a Vestel. É um privilégio ter a presença da cortiça num evento que não só gera grande visibilidade internacional, como também é apoiado por grandes nomes da economia turca, um mercado emergente e relevante para as exportações nacionais."
 
(Fonte: Amorim)